Ação conjunta do Ministério Público da Bahia e Polícia Civil do Rio mirou líder do tráfico de Caraíva abrigado na comunidade carioca
O Ministério Público da Bahia, com apoio tático da Polícia Civil do Rio de Janeiro, deflagrou nesta segunda-feira (20) uma operação na comunidade do Vidigal, na Zona Sul carioca, para capturar lideranças da facção Comando Vermelho. A investida provocou forte reação armada, resultando no bloqueio de uma das principais vias da cidade e no confinamento temporário de quase duas centenas de visitantes em um ponto turístico local.
O alvo central da ofensiva era Edinaldo Pereira Souza, conhecido como Dada. Apontado pelas autoridades baianas como o chefe do tráfico de drogas na região de Caraíva e Trancoso, no sul da Bahia, ele é considerado foragido desde 2024. Naquele ano, Souza escapou de um presídio baiano junto a outros 15 detentos.
A dinâmica do caso ilustra a rede de proteção interestadual estruturada pelo crime organizado. Desde sua fuga, o traficante encontrou refúgio na Rocinha, em São Conrado, operando sob o amparo armado do Comando Vermelho. O monitoramento de inteligência identificou que, para o feriado, Souza havia alugado um imóvel no Vidigal, comunidade vizinha, onde promovia uma festa para familiares e conhecidos.
Surpreendido pela chegada dos agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), Souza conseguiu escapar através de uma passagem secreta estreita, abandonando os próprios convidados. Embora o alvo principal não tenha sido capturado, a operação resultou na prisão de Núbia Santos de Oliveira. Identificada como esposa do traficante Wallas Souza Soares, o Patola, ela é investigada por atuar no esquema de lavagem de dinheiro da facção.
A tentativa de cumprimento dos mandados esbarrou na habitual tática de intimidação adotada pelo tráfico fluminense. Criminosos tentaram conter o avanço policial interditando a Avenida Niemeyer, via estratégica que liga São Conrado ao Leblon, utilizando um ônibus atravessado e contêineres de lixo. O fluxo de veículos só foi restabelecido por volta das 6h50, exigindo a formação de um comboio da Polícia Militar para garantir a travessia segura dos motoristas.
O clima de tensão afetou diretamente a rotina e a atividade econômica da região. Moradores relataram uma manhã de medo, com trocas de tiros registradas em diferentes pontos. Vídeos do confronto mostram um helicóptero da polícia realizando voos rasantes sobre o Vidigal.
No alto do Morro Dois Irmãos, cujo acesso se dá por uma trilha que inicia na comunidade, cerca de 200 turistas ficaram ilhados. O mirante é tradicionalmente procurado de madrugada por grupos interessados em observar o nascer do sol. O isolamento durou até as 7h20, quando os visitantes conseguiram descer escoltados por veículos blindados e viaturas.
“Claro que foi assustador, mas acho que foi tudo muito bem controlado pelos guias”, relatou uma turista portuguesa em entrevista ao Bom Dia Rio, destacando a orientação para que todos permanecessem abaixados durante o tiroteio.
O episódio evidencia o desafio do controle territorial no Rio de Janeiro, onde lideranças criminosas de outros estados continuam utilizando áreas dominadas por facções como santuários para fugir da Justiça e coordenar rotas de tráfico à distância.
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