Presença de gelo em crateras permanentemente sombreadas motiva corrida tecnológica e cronograma cauteloso da Nasa para as próximas missões Artemis
A exploração da Lua entra em uma nova fase técnica e geográfica com o redirecionamento das atenções para o Polo Sul, uma região que permaneceu intocada durante a era Apollo. Enquanto as missões históricas entre 1969 e 1972 concentraram-se na faixa equatorial do satélite por razões de iluminação e segurança de pouso, o programa Artemis, da Nasa, estabelece o extremo austral lunar como o objetivo central para a consolidação de uma presença humana prolongada no espaço.
O interesse científico e logístico pela região reside em sua peculiaridade térmica. Devido ao eixo de rotação quase vertical da Lua, certas crateras profundas no Polo Sul nunca receberam luz solar direta. Nestas áreas, que funcionam como depósitos naturais preservados por bilhões de anos, as temperaturas caem para níveis críticos de –175 °C, permitindo a manutenção de gelo proveniente de cometas e asteroides que atingiram a superfície lunar ao longo do tempo.
Estimativas técnicas indicam que o material superficial nessas zonas de sombra permanente pode conter até 20% de gelo. Para a agência espacial americana, este recurso é mais do que uma descoberta científica: representa o combustível do futuro. A água congelada pode ser decomposta em hidrogênio e oxigênio, elementos essenciais para a propulsão de foguetes e para o suporte à vida, transformando o Polo Sul em uma espécie de posto de abastecimento para missões que visem alcances maiores, como o planeta Marte.
A transição para este terreno inóspito, contudo, é executada sob um cronograma rigoroso de testes. A missão Artemis II, atualmente em curso nesta sexta-feira (3), mantém quatro astronautas em órbita ao redor do satélite, marcando o retorno de humanos à vizinhança lunar após mais de cinco décadas, mas sem a previsão de pouso. O planejamento prevê que o primeiro contato humano com o solo do Polo Sul ocorra apenas na Artemis IV, projetada para 2028.
Antes do desembarque histórico, a Nasa utilizará a Artemis III, em 2027, como um ensaio de acoplagem entre a cápsula Orion e módulos de pouso comerciais. A estratégia reflete a complexidade de operar em um ambiente onde o relevo é imprevisível e a comunicação com a Terra exige soluções tecnológicas que superem as limitações enfrentadas pelas tripulações da década de 1970. O sucesso destas etapas intermediárias determinará a viabilidade de transformar o gelo lunar em uma base operacional sustentável.
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