Probabilidade de formação do fenômeno entre maio e julho chega a 82%, com projeções de chuvas extremas no Sul e estiagem no Norte.
O aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial mobiliza a atenção de especialistas e pode reconfigurar o cenário climático e econômico global a partir deste mês. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) projeta uma probabilidade de 82% para a consolidação do fenômeno El Niño até julho deste ano, com 96% de chance de o evento manter-se ativo até o início de 2027.
Historicamente responsável por alterar a circulação atmosférica em múltiplas regiões do globo, o evento impõe desafios diretos ao planejamento estratégico brasileiro. Os modelos climáticos apontam para um aumento expressivo no volume de chuvas na região Sul — ampliando substancialmente o risco de desastres naturais —, enquanto o Norte e parcelas do Nordeste devem enfrentar períodos severos de redução pluviométrica. No Sudeste e Centro-Oeste, o impacto virá na forma de irregularidade nas chuvas e alta frequência de ondas de calor intenso.
Os desdobramentos em infraestrutura exigem atenção imediata de gestores públicos e de mercado. A escassez hídrica nas regiões dos principais reservatórios do país tende a forçar o acionamento de usinas termelétricas, elevando o custo da geração de energia e pressionando diretamente a tarifa repassada ao consumidor final na conta de luz. Em paralelo, a saúde pública entra em alerta com o potencial aumento de vetores de doenças como dengue e chikungunya nas áreas afetadas.
De acordo com a professora emérita do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), Maria Assunção Dias, as mudanças climáticas recentes atuam como um agravante direto. “O aquecimento global tem-se manifestado como um aquecimento da atmosfera e dos oceanos. Assim, o efeito nos El Niños é justamente a ocorrência de casos mais fortes, mais extremos”, explicou a pesquisadora.
A intensidade do atual aquecimento, no entanto, ainda divide projeções matemáticas. Uma parcela dos centros meteorológicos europeus trabalha com simulações de aquecimento acima de 3°C no Pacífico, o que classificaria o evento como muito forte — um patamar de intensidade semelhante aos episódios históricos de 1997 e 2015. A consolidação dessa magnitude só se confirmará à medida que os oceanos avançarem por essa fase atual de transição.
Diante do quadro, a recomendação central de especialistas aos governos é focar na redução de danos previsíveis. As diretrizes prioritárias envolvem o reforço ostensivo nos sistemas de alerta da Defesa Civil, o monitoramento preventivo do nível de rios, o combate ininterrupto a focos de queimadas e a adaptação logística imediata para a agricultura nacional.
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