Ação focada em acolhimento humanizado mobiliza 140 mulheres e evidencia impacto da atenção primária além da clínica
Jaraguari — A rotina de distanciamento que marcou os últimos anos da produtora rural Nair Barbosa foi interrompida por uma intervenção que transcende a medição de sinais vitais. No assentamento Estrela, interior de Mato Grosso do Sul, o programa Saúde no Campo, gerido pelo Senar/MS, converteu uma visita de rotina em um resgate social e de saúde mental.
Conhecida na comunidade pela mesa farta e pelo café sempre pronto, Nair carregava o costume de cuidar de quem a cercava. “Isso vem de família, a gente ser hospitaleiro”, afirma. O cenário mudou após o luto pela perda de uma amiga próxima, o que esvaziou a casa e impôs um quadro de desânimo severo à produtora, paralisando até mesmo atividades rotineiras do campo.
“Eu fiquei bastante triste, chorosa. Na realidade, eu perdi a vontade de viver”, relata Nair. A reversão desse quadro teve início quando a técnica de saúde rural Gláucia Villany, vinculada à Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) do Senar/MS, realizou o primeiro atendimento na propriedade.
O contato clínico rapidamente tornou-se um espaço de escuta ativa. A presença da profissional preencheu uma lacuna de convivência que o isolamento geográfico costuma agravar. Segundo a produtora, o fato de encontrar alguém disposto a dialogar sem pressa alterou drasticamente sua perspectiva. “Para mim, foi um divisor de águas; ela chegou e me mostrou que valia a pena eu continuar vivendo”, relembra.
Para Villany, a dinâmica no campo exige sensibilidade às dores invisíveis dos moradores. “Eu conseguia ver que eu poderia fazer a diferença não só no atendimento clínico, mas também no atendimento humanizado”, explica a técnica. Ao identificar que a demanda principal de Nair era por suporte emocional, a abordagem foi ajustada. “O remédio naquele momento não era físico, era para a alma e o coração.”
O impacto individual na propriedade de Nair gerou um movimento coletivo estruturado. Para estender o acolhimento, a técnica organizou a “Caminhada das Estrelas”, iniciativa que reuniu cerca de 140 mulheres da comunidade e de assentamentos vizinhos, reestabelecendo laços rompidos há quase uma década na região.
Hoje, sob acompanhamento mensal em domicílio, Nair adotou novos hábitos preventivos sob a insistência da profissional, incluindo a melhora na hidratação diária. “Eu não tomo água, não gosto de água. Ela pediu que eu colocasse limão e mudasse o sabor para que eu pudesse tomar mais”, detalha a produtora, que celebra a conveniência e o afeto da visita regular.
“Eu não preciso mais me deslocar daqui para lugar nenhum. Ela averigua a minha pressão e conversa comigo, que é o mais importante”, conclui Nair.
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