Em Goiás, presidente chama filhos de Bolsonaro de traidores e associa taxação americana de 25% a lobby político e temor por concorrência digital
Catalão — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) elevou o tom contra a ameaça de retaliação comercial dos Estados Unidos. Durante inaugurações no interior de Goiás nesta terça-feira, o mandatário exibiu um cartaz com a frase “O PIX é do Brasil” e exigiu contato direto do presidente norte-americano, Donald Trump, para justificar a proposta de aplicar impostos de até 25% sobre produtos brasileiros.
A crise diplomática e comercial tem como pano de fundo uma investigação do Escritório de Comércio dos EUA (USTR), iniciada em julho de 2025. O órgão americano alega que o Brasil adota práticas que prejudicam empresas do país, citando o sistema público de pagamentos instantâneos operado pelo Banco Central como um dos principais focos de atrito.
Na leitura de Lula, a tecnologia estatal tornou-se uma ameaça direta ao modelo de negócios das gigantes americanas de cartão de crédito. O presidente argumentou que o sistema financeiro brasileiro intimida o mercado estrangeiro e ironizou a ofensiva tarifária sugerindo uma adoção internacional da ferramenta.
“Ao invés de ter medo do PIX, coloca o PIX para funcionar nos Estados Unidos. Faz um PIX para nós”, declarou o chefe do Executivo, ressaltando que as credenciadoras tradicionais perderão espaço porque a plataforma brasileira “é de graça, é publico e ninguém paga nada”.
A justificativa americana de um suposto déficit comercial com o Brasil também foi duramente rebatida. O presidente lembrou que os Estados Unidos acumulam um expressivo saldo positivo de 415 bilhões de dólares nas relações bilaterais ao longo dos últimos 15 anos, classificando o anúncio recente de Washington como uma atitude intempestiva e alicerçada em inverdades.
A diplomacia brasileira e a americana haviam estabelecido um prazo de negociação de 30 dias após um encontro recente entre os dois líderes, com expectativa de um desfecho diplomático até 15 de julho. A quebra abrupta desse acordo provisório irritou o Palácio do Planalto.
“Você disse que pintou uma química entre eu e você. Quem anunciou isso, não foi você e nem eu. Você me deve uma reunião, e eu devo uma pra você.”
O recado direto a Trump veio acompanhado da afirmação de que o governo não quer guerra, mas exige respeito à soberania. O presidente ressaltou que aguarda um telefonema da Casa Branca para entender a decisão tomada na ausência de ambos e fora da janela de entendimento estipulada.
O tensionamento internacional, no entanto, também ganhou contornos de disputa política interna. Em nota, o governo afirmou ter recebido o documento norte-americano com indignação, apontando que o relatório foi construído após provocação da família Bolsonaro. Mais cedo, inaugurando o Instituto Federal Goiano, Lula endossou a tese com ataques frontais à oposição.
Sem meias palavras, o presidente associou os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro à articulação que culminou na ameaça tarifária. “Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras”, apontou Lula, classificando-os como “vendilhões da pátria”.
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