Voltar para início
Economia

Colapso de banco leva Paraguai a pedir saída do chefe do BC

Intervenção no Ueno Bank provoca filas, ordens de prisão e pedido de impeachment contra Santiago Peña

O presidente Santiago Peña pediu a renúncia do presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo, na terça-feira (3), horas depois de o órgão intervir no Ueno Bank em razão de uma crise de solvência que já atinge os escalões políticos do país.

Carvallo anunciou mais cedo que deixaria o cargo, mas disse que pretendia permanecer à frente da intervenção até sua conclusão. Ele chefiou anteriormente a instituição que deu origem ao Ueno — vínculo que alimentou críticas de que o governo Peña mantinha proximidade excessiva com o banco e deixou de fiscalizá-lo a tempo, apesar do crescimento acelerado da instituição.

Peña também pediu ao Congresso paraguaio a aprovação de um projeto de lei de emergência que autoriza o uso de recursos públicos para pagar imediatamente os clientes do Ueno impedidos de acessar as próprias contas. Filas se formaram em frente a agências do banco na manhã de terça-feira, com correntistas sem acesso ao dinheiro depositado.

Em publicação na rede social X na tarde de terça-feira, Peña buscou conter o alarme. "Este é um caso isolado de uma entidade, não do sistema financeiro nacional", escreveu. "Os responsáveis terão que responder à Justiça sem exceção nem privilégios."

O Ministério Público paraguaio abriu uma investigação sobre o Ueno após a intervenção, e a imprensa local informou que foram expedidas ordens de prisão contra ao menos oito pessoas ligadas à instituição. O jornal ABC relatou que os promotores buscam deter a cúpula do banco, incluindo Miguel Vazquez, à frente do Grupo Vazquez, conglomerado familiar dono do Ueno. O banco e o grupo não responderam a pedidos de comentário.

O Banco Central do Paraguai afirmou que precisou agir rapidamente para proteger os depósitos e limitar o impacto sobre o sistema financeiro. Segundo os reguladores, o índice de solvência do Ueno caiu abaixo do mínimo exigido de 50% depois de ajustes em seus balanços.

Os títulos soberanos do Paraguai recuaram levemente, com os papéis em dólar com vencimento em 2055 entre os de pior desempenho dos mercados emergentes na manhã de terça-feira, segundo dados compilados pela Bloomberg. Os títulos do próprio Ueno com vencimento em 2031 já haviam disparado para mais de 10% de rendimento no início deste mês, sinal de que o mercado via risco crescente de crédito. Os papéis foram emitidos em março, quando o banco debutou nos mercados globais de dívida — a maior emissão de títulos corporativos da história do Paraguai.

A intervenção representa uma reviravolta para Peña, aliado próximo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na América Latina, e que havia apresentado o Paraguai como refúgio de baixa tributação para estrangeiros. Peña repetidamente minimizou as preocupações com o balanço do Ueno e chegou a criticar a cobertura da imprensa, que, segundo ele, tinha a intenção de alimentar temores públicos.

Os depósitos do governo paraguaio no Ueno dispararam desde que Peña assumiu o cargo, em 2023, chegando a cerca de 5 trilhões de guaranis (869 milhões de dólares) — 29% do total de depósitos do banco até o fim de junho. A instituição também era a maior emissora de cartões de crédito do país, com quase 1,1 milhão de cartões ativos até setembro, e encerrou o ano passado com 2,6 milhões de clientes, o equivalente a um em cada três paraguaios, segundo dados do próprio banco.

Para os correntistas, a velocidade do colapso surpreendeu. "Soubemos dessa notícia esta manhã. Nunca imaginamos que chegaria a esse ponto", disse o advogado e consultor Ivan Rojas, de 32 anos, por telefone.

Os reguladores paraguaios sustentam que o caso não reflete uma crise mais ampla do sistema financeiro. Depósitos de até 228 milhões de guaranis por pessoa estão garantidos pela autoridade monetária, e investidores no país não esperam efeito em cadeia sobre outros bancos.

"Esta era uma instituição com uma gestão controversa", afirmou Alvaro Acosta, presidente da Investor Casa de Bolsa, a segunda maior corretora do Paraguai. "Todo o sistema financeiro já vinha alertando sobre isso, então os bancos estavam preparados e tinham exposição limitada à instituição."

Para o ex-ministro das Finanças Manuel Ferreira, as consequências econômicas devem ficar contidas, desde que o banco central garanta liquidez suficiente e evite perturbações nos fluxos de pagamento. "A reputação do Paraguai está em jogo neste momento, e tudo depende de como as autoridades reagem e das medidas que tomam", disse ele, em entrevista por telefone.

Jose Britez, vice-presidente da associação de bancos do Paraguai, a Asoban, afirmou que os bancos associados não registraram sinais de saída de depósitos.

Além da saída de Carvallo, o principal desdobramento do caso pode ser político. A senadora de oposição Yolanda Paredes pediu, na terça-feira, a abertura de um processo de impeachment contra Peña — embora o partido do presidente tenha maioria confortável no Congresso para bloquear qualquer tentativa de destituição.

A oferta de dívida do Ueno em março caiu de forma acentuada nos últimos meses em meio a reportagens sobre a saúde financeira do banco. A agência Fitch Ratings revisou, em outubro, a perspectiva dos títulos da instituição para negativa, citando "rápido crescimento do balanço e altos ativos intangíveis".

Na semana passada, executivos do Ueno haviam lançado um plano de capitalização de 100 milhões de dólares para reforçar a confiança nas operações do banco — metade dos recursos viria da holding U Holdings, e a outra metade, da venda de ações a investidores privados locais, segundo comunicado da instituição.

Em entrevista em outubro, conselheiros do Ueno atribuíram parte da pressão sobre os títulos do banco a um efeito cascata gerado pelos problemas de dívida de outra empresa paraguaia, o Frigorífico Concepción. A instituição já era alvo de uma investigação separada dos reguladores monetários sobre possível financiamento indireto para a venda de uma carteira de empresa dentro de sua holding. "O que o banco central questiona é se houve financiamento indireto", disse o presidente do conselho, Juan Manuel Gustale, na ocasião. "Sustentamos que não houve."


BR Times — Jornalismo com independência e responsabilidade.

Anuncie aqui Alcance leitores em todo o Brasil. Fale com o comercial do BR Times.
asobanbanco central do paraguaicarlos carvallocrise bancáriaDonald Trumpfitch ratingsfrigorífico concepcióngrupo vazquezImpeachmentmiguel vazquezParaguaiSantiago Penaueno bankyolanda paredes
Compartilhar: