Pesquisas indicam favoritismo democrata na Câmara e disputa apertada pelo Senado nesta terça-feira (3)
Os Estados Unidos vão às urnas nesta terça-feira (3) para as eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms. Donald Trump não concorre, mas o resultado vai definir a composição do Congresso para os próximos dois anos e, com isso, a margem de manobra que o presidente terá até o fim do governo, em janeiro de 2029.
Estão em disputa as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado. Diferentemente do Brasil, o Legislativo americano é renovado por partes: deputados cumprem mandatos de dois anos e senadores, de seis, o que faz o Congresso mudar de composição a cada ciclo eleitoral.
Em 2024, o Partido Republicano conquistou a maioria nas duas Casas, o que permitiu a Trump aprovar parte de sua agenda, ainda que com margens estreitas e resistências internas. Para Carlos Gustavo Poggio, professor de relações internacionais e especialista em política dos Estados Unidos, uma derrota republicana nas midterms dificultaria a aprovação de novos projetos e abriria espaço para o Legislativo travar ações do governo.
Poggio observa que Trump tem contornado o Congresso ao governar por meio de ordens executivas, recurso que usou para impor tarifas comerciais a diversos países, incluindo o Brasil. Uma maioria democrata no Senado e na Câmara, segundo o professor, poderia impor mais obstáculos a esse modelo de governança.
A principal preocupação do presidente, no entanto, estaria em outro ponto: a possibilidade de o Congresso abrir investigações contra ele e integrantes do governo. "Com uma mudança no Congresso, a principal preocupação do Trump é com todas as investigações que serão feitas sobre malfeitos durante a administração dele. E os democratas já deixaram isso claro", afirma Poggio. Para o professor, "o atual Congresso tem sido muito omisso e deixado muito Trump fazer aquilo que ele quer".
Um impeachment, contudo, é cenário que Poggio classifica como improvável. A Constituição americana exige apoio de dois terços do Senado para afastar um presidente, o que demandaria votos republicanos somados à bancada democrata. Isso só ocorreria, segundo ele, em um quadro de crise profunda, com forte queda de popularidade de Trump. "Esse é um cenário bastante distante", avalia o professor.
Diante do risco de perder o controle do Congresso, Trump tem percorrido o país quase diariamente em comícios e prometeu pagar um bônus de até cinco mil dólares a cada adulto americano caso os republicanos vençam a eleição. O presidente também apoiou o redesenho de distritos eleitorais em sete estados — Texas, Alabama, Flórida, Louisiana, Carolina do Norte, Ohio e Tennessee — para favorecer o próprio partido na Câmara. A Califórnia respondeu com um novo mapa favorável aos democratas, com expectativa de reverter cinco cadeiras hoje ocupadas por republicanos.
Trump também defende restrições ao voto pelo correio, alegando risco de fraude, e assinou em março um decreto para endurecer as regras e criar uma lista federal de eleitores aptos a votar por correspondência. Estados e organizações de defesa do direito ao voto contestaram a medida na Justiça, sob o argumento de que a Constituição atribui aos estados e ao Congresso — não ao presidente — a prerrogativa de definir regras eleitorais. Em setembro, a Suprema Corte manteve o bloqueio a parte do decreto antes do pleito de novembro.
O cenário nas urnas, porém, preocupa a Casa Branca. Pesquisas indicam desaprovação de cerca de 60% a Trump, atribuída principalmente à condução da economia e ao custo de vida nos Estados Unidos — pressão agravada pela alta dos combustíveis após a guerra contra o Irã.
No Senado, os republicanos têm hoje 53 cadeiras contra 47 dos democratas, mas projeções recentes mostram disputa equilibrada: o Center for Politics da Universidade da Virgínia via os democratas na frente por 49 a 46 cadeiras em 29 de outubro, enquanto o site Race to the WH dava aos democratas 78,4% de chance de vitória. Na Câmara, onde os republicanos controlam hoje 218 das 435 cadeiras contra 214 dos democratas, o favoritismo democrata é mais nítido: uma pesquisa Reuters/Ipsos de 19 de outubro apontou 47% de intenção de voto democrata contra 35% de republicano, e o Race to the WH atribuía aos democratas 95,2% de chance de retomar a Casa.
Os primeiros resultados devem sair ainda na noite de terça-feira, mas a definição de qual partido controlará cada Casa pode levar dias — em 2022, a disputa pela Câmara só foi encerrada mais de uma semana após a votação, em razão da demora na contagem de votos pelo correio.
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