Mobilização cai para 320 mil enquanto dívida pública se aproxima de 120% do PIB e Fitch piora nota de crédito do país
Protestos contra o alto custo de vida e a precariedade dos serviços públicos terminaram em confrontos com a polícia neste sábado (31) em Paris e em outras cidades da França. A polícia de choque avançou para dispersar grupos de manifestantes na capital francesa, enquanto gás lacrimogêneo foi usado em Lyon, terceira maior cidade do país, e em Toulouse, no sudoeste.
Segundo o Ministério do Interior francês, 320 mil pessoas participaram das manifestações em todo o país, das quais 70 mil em Paris. O número representa uma queda em relação às duas semanas anteriores: 410 mil manifestantes no sábado passado e 550 mil em 17 de outubro, data que marcou o início de uma onda de distúrbios e saques que destruiu lojas, prédios públicos e empresas em diferentes partes do país.
Os atos deste sábado reuniram estudantes, sindicatos e integrantes do movimento dos Coletes Amarelos, que protestam contra a alta dos preços dos combustíveis, a inflação e as dificuldades das famílias para pagar as contas. Em Marselha, a tensão cresceu ao final de manifestações que não tinham sido autorizadas pelas autoridades.
A mobilização ganhou força no fim de setembro, quando o governo minoritário do presidente Emmanuel Macron iniciou as negociações sobre o orçamento de 2027. O movimento começou com estudantes que reclamavam da piora das condições nas escolas, da superlotação das salas de aula e de um sistema de admissão nas universidades considerado injusto por parte dos jovens. Promessas do governo de reformar a educação e reduzir os gastos com combustível não foram suficientes para conter a insatisfação.
Em sua terceira semana consecutiva de protestos, o estudante Aaron Berthier de Grandry, de 15 anos, resumiu à Reuters o sentimento que motiva sua presença nas ruas de Paris. "Quando eu era pequeno, me diziam que os jovens eram o futuro", afirmou. "Bem, se nós, como o futuro da França, não temos recursos, isso significa que a França acabará entrando em colapso."
O manifestante Jérôme Rodriguez também criticou a situação econômica do país e a atuação do governo. "A economia francesa está indo mal, aconteça o que acontecer, porque hoje somos governados por um grupo de incompetentes que fazem malabarismos com bilhões, enquanto as famílias lutam para sobreviver com alguns centavos", disse.
As autoridades reforçaram o esquema de segurança para evitar a repetição dos episódios de vandalismo registrados em 17 de outubro. O ministro do Interior, Laurent Nunez, alertou neste sábado que máscaras de Halloween poderiam ser usadas para esconder a identidade de quem participasse de atos de vandalismo e afirmou que a legislação permite proibir o uso do acessório quando houver ameaça à ordem pública.
O Ministério do Interior informou que grupos considerados radicais tentaram se separar das marchas para provocar danos e saques em cidades como Bordeaux, Toulouse, Lyon e Marselha, mas foram contidos pelas forças de segurança. Fiscalizações em estações ferroviárias e rodovias encontraram objetos que poderiam ser usados como armas.
A Justiça administrativa francesa manteve a proibição de uma marcha entre as praças da Nação e da Bastilha, dois pontos tradicionais de Paris, ao rejeitar recurso apresentado por sindicatos. As autoridades autorizaram, em vez disso, uma manifestação por avenidas na zona leste da capital, afastada das áreas comerciais do centro. A Embaixada dos Estados Unidos recomendou que viajantes evitassem regiões com manifestações previstas ou grandes aglomerações.
A crise política coincide com um alerta sobre as contas públicas francesas. Na sexta-feira (30), a agência de classificação de risco Fitch mudou de estável para negativa a perspectiva da nota de crédito da França, sinal de preocupação com a trajetória fiscal do país. A dívida pública francesa se aproxima de 120% do Produto Interno Bruto — equivalente a mais do que tudo o que a economia produz em um ano —, enquanto os custos de financiamento do governo estão em alta.
O cenário reduz a margem de manobra do governo Macron para atender às reivindicações dos manifestantes sem comprometer ainda mais o quadro fiscal. Dados divulgados na sexta-feira mostraram que a economia francesa entrou em contração no terceiro trimestre.
A Câmara de Comércio estima que os prejuízos ao varejo nos episódios de distúrbios já ultrapassem 1 bilhão de euros, cerca de 1,1 bilhão de dólares. Outras estimativas apontam perdas duas vezes maiores quando são somados danos não cobertos por seguros e receitas que deixaram de ser obtidas. Lojas de marcas de luxo como Hermès, Louis Vuitton e Burberry estiveram entre os estabelecimentos atingidos.
A crise também reconfigura o tabuleiro político a poucos meses da eleição presidencial prevista para abril. O líder da esquerda Jean-Luc Mélenchon participou da marcha em Paris e viu sua popularidade crescer nas últimas semanas. A líder da extrema direita Marine Le Pen aparece na frente das pesquisas de intenção de voto, enquanto possíveis sucessores centristas de Macron seguem divididos.
Os protestos franceses inspiraram atos liderados por jovens da chamada Geração Z em outros países europeus. Neste sábado, manifestações também foram registradas em várias cidades da Alemanha e da Itália.
Em algumas das principais avenidas comerciais de Paris, as luzes de Natal já estão acesas ao redor de lojas protegidas por tábuas e grades — contraste entre a tradição natalina e a tensão social que atravessa a França.
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