Artemis II leva astronautas à face não visível pela primeira vez em mais de 50 anos, provocando debate sobre a rotação lunar
A missão Artemis II, lançada pela agência espacial norte-americana (Nasa) na última quinta-feira (1º), conduzirá quatro astronautas a uma região não visitada por humanos desde a década de 1970. O sobrevoo da cápsula Orion inclui uma passagem pelo chamado lado oculto da Lua, a face que permanece permanentemente escondida para os observadores terrestres.
A ocultação de metade do satélite natural não é obra do acaso, mas fruto de uma estabilização gravitacional. A Lua completa seus movimentos de rotação e translação em exatamente o mesmo período — cerca de 27,3 dias. Essa sincronia garante que o corpo celeste exiba sempre o mesmo ângulo em relação à Terra.
O astrônomo João Batista Garcia Canalle, coordenador da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica, explica que a coincidência de prazos é fundamental. “Se ela não girasse em torno de si mesma, veríamos todos os seus lados ao longo de um mês. Para manter a mesma face voltada para o centro da órbita, ela precisa completar uma volta de 360° sobre o próprio eixo enquanto completa uma volta ao redor da Terra”, afirma.
O alinhamento atual é o estágio final de uma longa evolução mecânica. No passado, a velocidade de rotação lunar era significativamente maior. A força gravitacional da Terra, no entanto, agiu como um “freio” por milhões de anos, provocando um processo de fricção que desacelerou gradativamente o satélite até a sincronia atual.
A face inexplorada costuma ser descrita popularmente como “lado escuro”, um equívoco consagrado na década de 1970 pela banda britânica Pink Floyd. Na prática geofísica, a região oculta recebe radiação solar na mesma proporção que a face visível. Durante a fase de Lua Nova, a parte afastada encontra-se plenamente iluminada, enquanto a porção que enxergamos a partir do Brasil mergulha na escuridão lunar.
Estruturalmente, os dois hemisférios apresentam disparidades marcantes. A face invisível possui uma crosta mais espessa e é intensamente marcada por crateras, carecendo dos “mares” de lava basáltica. Segundo Caio Britto, autor de física do Sistema de Ensino pH, as distinções remontam à origem do Sistema Solar. “Essa diferença de temperatura fez com que houvesse mais cristalização no lado oculto, criando superfícies irregulares, e, no lado visível, as pedras e cristais foram derretidos e criaram uma superfície mais lisa e plana”, ressalta.
Para a tripulação da Artemis II, o momento trará também um desafio operacional absoluto. A massa sólida e opaca da Lua atuará como um bloqueio físico total contra as ondas de rádio terrestres, resultando em alguns minutos de isolamento de comunicação sem precedentes desde a missão Apollo 17, em 1972.
O apagão tático, contudo, é necessário. Caso a manobra siga sem imprevistos, os astronautas terão a rara chance de mapear com os próprios olhos uma das fronteiras mais remotas do nosso sistema.
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