Após um empate frustrante contra o Marrocos na estreia da Copa do Mundo, a exigência do torcedor brasileiro é clara: eficiência, mérito e uma vitória sem sustos contra o Haiti, confronto marcado para a próxima sexta-feira (19). Para que o resultado venha, a opinião pública tem cobrado a entrada do atacante Endrick. No entanto, a resistência do técnico Carlo Ancelotti em dar espaço ao jovem talento acabou gerando um episódio insólito nas redes sociais, motivado por um grave problema de comunicação e objetividade.
A indefinição sobre a titularidade esbarrou em uma construção frasal ambígua que viralizou rapidamente. O texto em questão afirmava: “Ancelotti disse a Endrick que ele será titular contra o Haiti”.

A falta de precisão na língua portuguesa abriu brecha para uma interpretação cômica. Ao invés de confirmar que Endrick faria companhia a Vini Jr. e Raphinha no trio ofensivo, a falha gramatical deu a entender que o próprio treinador italiano, aos 67 anos, calçaria as chuteiras para assumir o comando do ataque do Brasil.
A Avaliação Técnica do Erro
Para entender como a falta de clareza gera ruído, a gramática oferece a resposta exata. Thiago Braga, autor de Língua Portuguesa do Sistema de Ensino pH, explica que o problema reside no uso do pronome “ele”. Trata-se de um elemento anafórico, ou seja, uma palavra que precisa se apoiar em um termo anterior para fazer sentido.
“O problema é que a frase oferece dois antecedentes possíveis, ambos masculinos e singulares: Ancelotti e Endrick. Como nada na estrutura sintática obriga uma leitura ou outra, o ‘ele’ fica com referência indeterminada”, pontua Braga.
A ausência de ordem sintática cria a confusão. Eduardo Calbucci, diretor pedagógico do Curso Anglo, destaca que o erro só passa despercebido inicialmente porque o nosso cérebro tenta aplicar a lógica do mundo real. Se a frase envolvesse dois desconhecidos — como “Pedro disse a Paulo que ele será titular” —, a falha de comunicação seria imediata e evidente.
“Nesse caso, a brincadeira está que uma das interpretações é muito mais possível do que a outra. Então, num primeiro momento, é como se a gente não percebesse que se trata de uma ambiguidade sintática”, avalia o diretor do Anglo.
Pragmatismo x Gramática
Na prática, a leitura pragmática deduz que o jogador (Endrick) é quem vai a campo. Porém, do ponto de vista estritamente gramatical, o pronome pode perfeitamente apontar para o treinador.
“O autor explora justamente essa brecha: ao puxar o ‘ele’ para Ancelotti, chega à conclusão absurda de que o treinador comporia o trio de ataque com Vini Jr. e Raphinha”, acrescenta Thiago Braga. Ele observa que, embora exista uma inclinação natural para ligar o pronome ao nome mais próximo (Endrick), isso não é uma regra absoluta, o que mantém o duplo sentido vivo.
Para Calbucci, o caso serve de alerta sobre o cuidado com a precisão da informação. “Quando a gente usa um pronome anafórico, é preciso tomar muito cuidado, porque ele só pode retomar um termo. Se ele eventualmente admitir a retomada de dois termos diferentes, eu gero justamente esse duplo sentido.”
No fim das contas, a solução para evitar o ruído e focar no que realmente importa — o desempenho em campo — seria a adoção de uma comunicação direta e sem margem para interpretações: “Ancelotti disse a Endrick que o atacante será titular.”

