Migração entre brancos e pardos representa mais de 70% das mudanças; especialistas apontam falhas burocráticas, autopercepção e interesse em repasses eleitorais
Brasília — Um levantamento feito com base em dados parciais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revela que 786 candidatos registrados para as eleições de 2026 alteraram sua declaração de cor ou raça em comparação com o pleito de 2022. O contingente equivale a 4,5% dos 17.413 registros de candidatura analisados até a noite da última quarta-feira (12). Os partidos e coligações têm prazo limite até as 19h de sábado (15) para consolidar e enviar todas as informações à Justiça Eleitoral.
A alteração mais expressiva ocorreu na transição da declaração de cor branca para parda, registrando 308 casos. O movimento oposto, de pardo para branco, figurou em segundo lugar, com 262 ocorrências. Somadas, as duas movimentações abrangem 570 candidatos, correspondendo a mais de 7 em cada 10 registros alterados nesta edição eleitoral.
A autodeclaração racial ganhou relevância direta na gestão das campanhas após a definição de regras que vinculam a distribuição de verbas públicas às candidaturas negras. Pelas normas vigentes, legendas partidárias são obrigadas a repassar ao menos 30% do montante do Fundo Eleitoral a postulantes pretos e pardos. O regramento busca ampliar a representatividade, mas gera debates sobre a fiscalização dos critérios adotados nos registros.
Especialistas em direito eleitoral e sociologia indicam que a oscilação nos dados não decorre de um fator único. Conforme explica Ana Cláudia Santano, doutora em Ciências Jurídicas e Políticas e coordenadora-geral da Transparência Eleitoral Brasil, uma alteração cadastral não configura, por si só, irregularidade. A especialista aponta que o fenômeno pode derivar de erro humano no preenchimento formulado pelos partidos, reavaliação pessoal de identidade do candidato ou busca pragmática por recursos de financiamento destinados a postulantes negros.
Sob a ótica sociológica, a professora e pesquisadora Flávia Rios, da Universidade de São Paulo (USP) e do núcleo Afro-Cebrap, lembra que a exigência do quesito cor ou raça nos formulários do TSE foi adotada em 2014, utilizando os parâmetros do IBGE. Para Rios, parte das divergências reflete dinâmicas internas das próprias agremiações políticas, nas quais funcionários burocráticos realizam o cadastramento sem consulta direta ao candidato, resultando em classificações inconsistentes ao longo dos pleitos.
Além da mediação partidária, Rios ressalta o impacto de incentivos institucionais e transformações culturais. No cenário contemporâneo, a existência de políticas afirmativas e reservas de recursos eleitorais estimula o pertencimento e a declaração como preto, pardo ou indígena. A pesquisadora enfatiza, contudo, que a oscilação no perfil demográfico das candidaturas acompanha uma tendência histórica de reorganização da percepção da população sobre a própria identidade racial.
Na divisão partidária dos dados absolutos, o Republicanos lidera a lista de mudanças, registrando 75 candidatos com dados alterados entre 2022 e 2026 — dos quais 36 mudaram de branco para pardo e 21 de pardo para branco. Em seguida aparecem o Partido Liberal (PL), com 70 casos, e o MDB, com 62 alterações. O levantamento retrata a contagem bruta por legenda no pleito atual, sem correlacionar diretamente ao tamanho total de cada bancada.
Diante do cenário, os partidos adotam posturas distintas na verificação das informações. Legendas como o PT e o PSOL instituíram bancas de heteroidentificação para avaliar candidatos autodeclarados pretos e pardos antes do repasse de verbas diferenciadas. Por outro lado, partidos como o Missão reiteraram oposição ao modelo de cotas e distribuição assimétrica do Fundo Eleitoral, ressaltando que, em seus quadros, as alterações identificadas ocorreram de pardo para branco, sem qualquer obtenção de benefício financeiro. O TSE foi procurado para detalhar os procedimentos de auditagem cadastral, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem.
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