Santiago Peña deixa o cargo horas antes de votação de impeachment; vice Pedro Alliana assume, mas também é alvo do processo
O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo nesta quinta-feira (5), poucas horas antes de o Congresso paraguaio votar um processo de impeachment contra ele. A saída ocorre em meio à crise bancária provocada pelo fechamento do banco digital Ueno, do qual Peña foi acionista até março do ano passado.
Em vídeo divulgado à população, o presidente afirmou ter decidido renunciar "pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas". Peña pediu desculpas aos correntistas que ficaram sem acesso ao próprio dinheiro e declarou: "Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai. Também quero pedir desculpas ao povo. Se em algum momento falhei, nunca foi minha intenção decepcionar a confiança que depositaram em mim".
A renúncia foi precedida pela desidratação política do governo. Nesta manhã, todas as bancadas da Câmara dos Deputados anunciaram que votariam a favor do impeachment, logo depois que aliados de Peña retiraram apoio ao presidente e passaram a defender sua saída. Entre eles, Horacio Cortes, atual presidente do Partido Colorado — sigla de Peña — e considerado seu mentor político, além de Basilio Núñez, também do Colorado e presidente do Congresso.
A acusação contra Peña, apresentada por 35 deputados, aponta conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários. O texto também responsabiliza o Banco Central paraguaio por supostamente encobrir irregularidades no sistema financeiro. Durante a sessão que antecedeu o pedido, a deputada de oposição Rocío Vallejo classificou o episódio em termos duros: "Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente... o senhor é a origem desse monstro que criou".
No centro da crise está o Ueno, banco digital pertencente ao Grupo Vázquez que fechou as portas na terça-feira (3) após o Banco Central iniciar sua liquidação. A autoridade monetária identificou insuficiência de recursos para cobrir obrigações da instituição, relacionada a empréstimos concedidos a empresas vinculadas ao próprio banco. O Ueno reunia cerca de três milhões de clientes e concentrava aproximadamente 850 milhões de dólares em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social.
Antes de anunciar a renúncia, Peña havia tentado conter a crise. Em publicação nas redes sociais, afirmou que os responsáveis pelas irregularidades "responderão à Justiça", sem exceções, pouco antes de promulgar uma lei para acelerar a devolução do dinheiro aos clientes do Ueno. "Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse", sustentou o presidente.
A apuração já havia avançado antes mesmo da renúncia: executivos do Ueno se entregaram às autoridades depois que a Procuradoria emitiu mandados de prisão contra eles e acusou formalmente 27 pessoas ligadas ao banco. A Justiça paraguaia ordenou ainda o bloqueio dos bens dos acusados.
O nervosismo se espalhou pelo sistema financeiro. Na quarta-feira, circularam relatos de falhas em aplicativos de outros bancos, o que ampliou a preocupação de correntistas. A Associação de Bancos do Paraguai informou que as instituições trabalhavam para atender ao volume de clientes que transferiam contas do Ueno, mas garantiu que o sistema bancário continuava "operando normalmente".
Economista e ex-ministro da Fazenda, Peña assumiu a Presidência do Paraguai em 2023, com mandato previsto até 2028. Quem assume o cargo agora é o vice-presidente Pedro Alliana — que, no entanto, também é alvo do mesmo processo de impeachment que havia levado o Congresso a convocar a sessão extraordinária desta quinta-feira.
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