Voltar para início
Mundo

Base retira apoio, e Paraguai avança impeachment contra Peña

Crise do banco Ueno deixou cerca de 3 milhões de clientes sem acesso ao dinheiro e motivou acusação de desvio de recursos previdenciários

O Congresso do Paraguai iniciou nesta quinta-feira (5) os primeiros passos para votar o impeachment do presidente Santiago Peña e de seu vice, em meio a uma crise bancária que deixou milhões de poupadores sem acesso às próprias economias. A iniciativa reúne tanto a oposição quanto parte da base governista, que retirou o apoio ao presidente horas antes da sessão.

A crise começou depois que o banco digital Ueno fechou as portas, impedindo milhares de clientes de movimentar seus recursos. Peña foi acionista do grupo controlador da instituição até março do ano passado, e a oposição acusa o Banco Central paraguaio de encobrir irregularidades que antecederam o colapso.

Todas as bancadas da Câmara dos Deputados anunciaram que votarão a favor do impeachment na sessão extraordinária convocada para esta quinta. Antes mesmo da votação, aliados de Peña romperam publicamente com o governo e passaram a defender tanto o processo de impeachment quanto a renúncia do presidente.

A ofensiva ganhou força depois que o presidente do Congresso, Basilio Nuñez, e o líder do Partido Colorado, Horacio Cartes, retiraram seu apoio a Peña. Até a última atualização, o presidente não havia se manifestado sobre a defecção de sua própria base. A imprensa paraguaia aponta ainda a possibilidade de que Peña renuncie ao cargo antes de ser formalmente submetido ao impeachment.

A sessão desta quinta marca apenas o primeiro passo do processo: é necessária uma maioria de dois terços dos parlamentares presentes para dar início aos trâmites do impeachment propriamente dito. A sessão ainda estava em curso até o fechamento desta reportagem.

A acusação apresentada por 35 deputados imputa a Peña conflito de interesses, manipulação de regras e desvio de recursos previdenciários, além de apontar que o Banco Central teria encoberto irregularidades no sistema financeiro. "Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente... o senhor é a origem desse monstro que criou", declarou a deputada de oposição Rocío Vallejo durante a sessão, pouco antes da apresentação formal do pedido.

O colapso do banco Ueno

O Ueno, que pertence ao Grupo Vázquez, tinha cerca de 3 milhões de clientes e concentrava aproximadamente 850 milhões de dólares em depósitos públicos — entre eles, recursos do Instituto de Previdência Social paraguaio. A instituição fechou as portas na terça-feira (3), depois que o Banco Central iniciou sua liquidação ao identificar insuficiência de recursos para cobrir obrigações relacionadas a empréstimos concedidos a empresas vinculadas ao próprio banco.

Em publicação nas redes sociais, Peña afirmou que os responsáveis pelas irregularidades responderão à Justiça, sem exceções. A declaração foi feita pouco antes de o presidente sancionar uma lei que permitirá aos clientes do Ueno recuperar seu dinheiro com mais rapidez.

"Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse", afirmou o presidente.

Executivos do Ueno se entregaram às autoridades depois que a Procuradoria emitiu mandados de prisão e acusou formalmente 27 pessoas ligadas ao banco. A Justiça paraguaia determinou ainda o bloqueio dos bens dos acusados.

Na quarta-feira (4), relatos de falhas em aplicativos de outros bancos ampliaram a preocupação com o sistema financeiro do país. A Associação de Bancos do Paraguai informou que as instituições trabalhavam para atender ao volume de clientes que transferiam contas do Ueno e afirmou que o sistema bancário continuava "operando normalmente".

Economista e ex-ministro da Fazenda durante o governo de Horacio Cartes, Santiago Peña assumiu a presidência do Paraguai em 2023, com perfil conservador. O desfecho da crise — impeachment, renúncia ou resistência política — deve se definir nos próximos dias, conforme avança a sessão no Congresso.


BR Times — Jornalismo com independência e responsabilidade.

Anuncie aqui Alcance leitores em todo o Brasil. Fale com o comercial do BR Times.
AssunçãoBanco Centralbanco uenobasilio nuñezCongresso Nacionalcrise bancáriagrupo vazquezhoracio cartesImpeachmentParaguaipartido coloradorocío vallejoSantiago Pena
Compartilhar: