Redução no abate por parte dos frigoríficos e demanda reprimida de fim de ano sustentam os preços elevados nos supermercados nacionais
O esgotamento precoce da cota anual de exportação de carne bovina brasileira para a China não trará o alívio esperado para o bolso do consumidor doméstico. Economistas e analistas do setor alertam que, apesar da desaceleração forçada nos embarques para o principal parceiro comercial do agronegócio nacional nas próximas semanas, uma combinação de fatores estruturais manterá os preços elevados nos supermercados até o fim de 2026.
A China adota um teto de 1,1 milhão de toneladas anuais para a compra da proteína brasileira sob uma tarifa reduzida de 12%. Com a proximidade desse limite regulatório, os frigoríficos nacionais já começaram a readequar o ritmo de suas operações. No entanto, o ajuste não se traduzirá em excesso de oferta interna. Em vez de redirecionar o excedente para o mercado local, a indústria optou por diminuir o volume de abate de bovinos, contraindo a produção total.
Segundo Fernando Iglesias, analista da consultoria Safras & Mercado, a atual conjuntura de baixa procura interna já pressionava as margens dos produtores. As expectativas do setor para uma reação no consumo doméstico no meio do ano foram frustradas recentemente. A eliminação da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de futebol, ocorrida no início de julho, interrompeu o tradicional aquecimento de vendas associado ao evento esportivo.
A calmaria nos preços, contudo, tem prazo de validade curto. O transporte marítimo da carne até os portos chineses exige uma logística complexa, com viagens de navio que duram cerca de 40 dias. Isso obriga a indústria a antecipar o planejamento estratégico para o ciclo seguinte. Assim, no último bimestre de 2026, os frigoríficos devem voltar a reter gado e direcionar a linha de produção para atender à renovação da cota de Pequim, que ocorre em janeiro de 2027.
"O grande problema nessa história toda é que vai ter uma menor disponibilidade de gado para o abate nesse período."
A análise de Iglesias aponta que essa menor oferta de animais prontos para o abate coincidirá exatamente com o pico de consumo do mercado interno durante as festas de fim de ano, gerando uma pressão inflacionária sazonal. Os desdobramentos climáticos tardios causados pelo fenômeno El Niño ao longo do ano limitaram a recuperação plena das pastagens, reduzindo a capacidade de retenção dos pecuaristas e estreitando ainda mais a oferta de gado magro.
No cenário global, há variáveis que podem mitigar a rigidez regulatória asiática. Bruno Capuzzi, pesquisador do Insper Agro Global, avalia que uma escalada contínua nos preços internos dos alimentos na China pode forçar o governo de Pequim a flexibilizar os limites atuais para assegurar seu próprio abastecimento. Outra alternativa regulatória sob análise seria o remanejamento estratégico de cotas ociosas de outras nações exportadoras para absorver o excedente de produção do Brasil.
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