Levantamento do Cemaden projeta aumento de eventos extremos com risco de estiagem severa, queimadas em 35% do território e alta no preço dos alimentos
O território brasileiro deve registrar ao menos seis ondas de calor até o mês de dezembro, impulsionadas pela formação de um quadro de Super El Niño. O alerta integra uma análise técnica do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), indicando que o fenômeno térmico, antes restrito a áreas pontuais do território, agora atinge proporções generalizadas, cobrindo o país de forma simultânea nos próximos meses.
A projeção toma como base uma série de 47 anos de registros climáticos em períodos de vigência do El Niño. Diferente dos padrões verificados nas décadas de 1980 e 1990 — quando episódios extremos eram esporádicos e concentrados principalmente no Nordeste —, os dados a partir de 2010 mostram uma expansão territorial contínua. No último ciclo do fenômeno, entre 2023 e 2024, o Brasil enfrentou nove ondas de calor, mais que o dobro da média histórica nacional de quatro ocorrências, submetendo mais de 6 milhões de brasileiros a pelo menos 150 dias de temperaturas extremas.
Tecnicamente, a caracterização de uma onda de calor exige a manutenção de marcas térmicas máximas e mínimas excepcionalmente elevadas por ao menos três dias consecutivos. A dinâmica decorre do bloqueio exercido por massas de alta pressão atmosférica estacionadas sobre o continente, que impedem a chegada de frentes frias, inibem a formação de nuvens e represam o ar quente e seco, reduzindo rapidamente a umidade do solo e intensificando o aquecimento basal.
A pesquisadora Mabel Calim Costa, doutora em ciências do Sistema Terrestre pelo Cemaden, aponta que o número previsto de eventos pode ser superado diante do aquecimento contínuo dos mares. "Essa é uma média, mas vimos no último El Niño o país viver nove ondas de calor, com dias extremamente quentes. Com as temperaturas dos oceanos subindo, pode ser que o cenário seja ainda mais intenso e isso traz consequências para o país", explicou a especialista.
Modelos meteorológicos para o mês de setembro indicam anomalias térmicas de até 3°C acima da média histórica em praticamente todo o mapa nacional. Segundo o meteorologista Marcelo Seluchi, os reflexos iniciais trarão calor intenso ao Centro-Sul e chuvas concentradas no Sul. "A temperatura dos oceanos estão batendo recordes e as previsões indicam que vão continuar aumentando. Isso nos mostra que podemos esperar um calor intenso já a partir de setembro, com ondas de calor acontecendo com maior frequência, intensidade e duração", destacou Seluchi.
A persistência das altas temperaturas acelera a evapotranspiração da vegetação e o esgotamento hídrico do solo, agravando a estiagem. Registros do Índice Integrado de Seca contabilizam 157 municípios em situação de seca severa no país, concentrados sobretudo no Norte e Nordeste. O estado do Tocantins lidera o quadro com 50 cidades afetadas, seguido pela Bahia, com 18 localidades. A pesquisadora de secas Ana Paula Cunha adverte que "as regiões mais afetadas vão ser o Norte e o Nordeste, já estamos vendo isso com registros de chuva inferior ao esperado nessas regiões".
O quadro climático eleva paralelamente o perigo de queimadas. Monitoramento conjunto do CPTEC/INPE, Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e Funceme identificou 560 municípios em alerta máximo para focos de incêndio, abrangendo mais de 3 milhões de quilômetros quadrados — o equivalente a mais de 35% da extensão territorial brasileira —, com maior vulnerabilidade no corredor entre a Amazônia e o Pantanal. Para conter os impactos, o Ministério do Meio Ambiente mantém desde maio um gabinete de crise e o contingente de 4,6 mil brigadistas federais, após a Amazônia registrar no primeiro semestre de 2026 a menor área sob alertas de desmatamento em dez anos pelo sistema Deter.
Os choques térmicos e a escassez de chuvas também projetam impactos econômicos diretos sobre o orçamento das famílias. Estimativas técnicas indicam que os preços de alimentos podem atingir pico inflacionário em até seis meses após os eventos climáticos extremos. Produtos in natura, carnes e hortaliças figuram como os mais vulneráveis, com projeções de alta de até 19,9% sob um El Niño intenso, enquanto a alimentação geral no domicílio pode avançar 6,32%.
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