A senadora Soraya Thronicke já não faz qualquer esforço para esconder sua guinada política. Nesta terça-feira, Soraya se reuniu com a ministra das Relações Institucionais do governo Lula, Gleisi Hoffmann, para tratar diretamente de uma parceria eleitoral visando a eleição de outubro em Mato Grosso do Sul. O encontro escancara a consolidação de uma aliança com o núcleo duro do petismo.

A movimentação é apenas o primeiro passo de uma articulação maior. Um novo encontro deve ocorrer ainda neste mês, quando Soraya deverá sentar à mesa com Lula, com o pré-candidato do PT ao governo do Estado, Fábio Trad, e com o pré-candidato petista ao Senado, Vander Loubet. O objetivo é claro: alinhar palanque, discurso e estratégia para inserir Soraya definitivamente no projeto eleitoral da esquerda no Estado.
Nos bastidores, a articulação também revela a falta de opções do PT. Antes de fechar com Soraya, Vander Loubet e o partido tentaram atrair Simone Tebet, mas encontraram resistência. Em seguida, buscaram Nelsinho Trad (PSD), que não demonstrou qualquer interesse em formar dobradinha. Sem alternativas viáveis, o grupo petista optou por o último nome da lista, Soraya como nome disponível para garantir o segundo voto ao Senado.
Para consolidar a aliança, Soraya já avalia mudar de legenda na próxima janela partidária, com destino provável ao PSB ou ao PDT, partidos historicamente alinhados ao campo da esquerda e próximos ao governo Lula.
Essa movimentação confirma o que muitos eleitores já perceberam: o discurso de direita nunca passou de uma encenação eleitoral. Durante a campanha, Soraya surfou deliberadamente na onda bolsonarista, adotou uma retórica antipetista, falou diretamente ao eleitor conservador e se beneficiou da rejeição ao PT para conquistar votos e mandato. Foi eleita com essa narrativa — e a abandonou assim que a eleição terminou.
Encerrado o processo eleitoral, a máscara caiu.
Hoje, Soraya rompeu publicamente com Jair Bolsonaro e com seus aliados, passando a classificar antigos apoiadores como uma “seita”, por não aceitarem críticas ao ex-presidente. A senadora deixou claro, inclusive, que não fará campanha para nenhum candidato apoiado por Bolsonaro. As declarações e a postura agressiva fizeram com que fosse rotulada como traidora pelo mesmo grupo que concentrou grande parte de seus votos em 2018.
Ciente de que enfrentará enorme rejeição do eleitor conservador, Soraya decidiu apostar exatamente no público que combatia no passado. Nos últimos anos, passou a direcionar boa parte dos recursos de seu mandato para pautas caras à esquerda, como a agricultura familiar, com foco em indígenas, assentados e grupos historicamente ligados à base petista, numa tentativa clara de reconstruir sua base eleitoral em outro campo ideológico.
O movimento é cristalino: Soraya trocou convicções por conveniência. Sem base sólida na direita, sem respaldo popular consistente e sem liderança consolidada, encontrou no lulismo sua tábua de salvação política. Trata-se de um estelionato eleitoral clássico: usar o discurso conservador para vencer e a aliança com a esquerda para sobreviver no poder.
Ao se oferecer como aliada de Lula em Mato Grosso do Sul, Soraya não apenas rompe com o discurso que a elegeu — ela assume, na prática, que enganou o eleitor. E na política, a conta da traição costuma chegar com juros altos.