A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Campo Grande neste domingo, durante a realização da COP15, escancarou mais do que uma agenda institucional: revelou uma articulação política explícita da esquerda em um estado que historicamente rejeita esse projeto.
A passagem pela capital sul-mato-grossense, que deveria ter como foco central o evento internacional voltado às pautas ambientais, acabou sendo utilizada como palco para um movimento político claro. Lula apareceu de forma alinhada e de braços dados com Fábio Trad, Soraya Thronicke e Camila Jara, consolidando uma tentativa de construção de um bloco único da esquerda no estado.
O gesto não passou despercebido. A união entre os três nomes — Trad, Soraya e Camila — representa uma aliança que, na prática, tenta reposicionar a esquerda em um território onde ela enfrenta resistência histórica. Mato Grosso do Sul é, majoritariamente, um estado conservador, com forte presença do agronegócio e que deu mais de 70% dos votos a Jair Bolsonaro nas últimas eleições presidenciais.

Ainda assim, a estratégia parece ignorar completamente esse cenário. Fábio Trad surge como nome impulsionado dentro desse grupo, enquanto Soraya Thronicke, que já transitou por discursos alinhados à direita, agora aparece consolidada ao lado da esquerda. Já Camila Jara reforça o eixo mais ideológico do grupo, sendo uma das principais representantes do PT no estado.
A imagem dos três juntos, ao lado de Lula, sintetiza a tentativa de criar um palanque unificado. No entanto, a leitura política local aponta para um desalinhamento evidente com o eleitor sul-mato-grossense. Trata-se de uma composição que enfrenta resistência não apenas pelo histórico dos envolvidos, mas principalmente pelo contraste com o perfil conservador predominante na população.
Outro ponto que chamou atenção foi a ausência de apoio popular consistente ao longo da agenda. Apenas na chegada de Lula houve a presença de um pequeno grupo organizado, composto principalmente por sindicalistas que levaram alguns simpatizantes. Fora esse momento pontual, o cenário foi de esvaziamento.
Em frente ao evento realizado no Palácio Popular da Cultura, onde ocorreu parte da programação da COP15, não se viu mobilização popular. Não havia concentração de apoiadores, nem presença significativa de militantes, bandeiras, organizações ou grupos alinhados ao governo. O ambiente foi marcado pela ausência de demonstrações espontâneas de apoio.
O uso de um evento internacional como a COP15 para esse tipo de articulação política também levanta questionamentos. O que deveria ser uma agenda institucional voltada ao debate ambiental acabou sendo transformado em vitrine para um projeto político que tenta avançar em um estado onde a direita mantém ampla hegemonia.
Nos bastidores, a avaliação é de que a aliança entre Fábio Trad, Soraya Thronicke e Camila Jara, apesar de barulhenta, encontra dificuldade de conexão com a realidade local. A tentativa de unificação da esquerda esbarra diretamente em um eleitorado que, nas urnas, já deixou claro seu posicionamento.