Documento tornado público pelo STF compila mensagens apreendidas na Operação Compliance Zero e indica agendas não registradas entre 2024 e 2025
Brasília — Um relatório da Polícia Federal (PF) revelou a ocorrência de ao menos oito encontros entre o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. O rastreamento baseia-se em trocas de mensagens interceptadas no celular do banqueiro, apreendido durante a Operação Compliance Zero.
O documento, cujo sigilo foi derrubado nesta terça-feira (1º) pelo ministro André Mendonça — relator do caso Master na Corte —, compila diálogos de Vorcaro com familiares, funcionários e aliados políticos. Ao todo, os investigadores mapearam 16 ocasiões de possível contato direto entre os dois ao longo de 2024 e 2025, divididas entre compromissos pessoais, reuniões em residências privadas e eventos no exterior.
Metade dessas agendas foi confirmada pelo cruzamento das conversas. O primeiro grande registro aponta para a estruturação do "I Fórum Jurídico" em Londres, entre 24 e 26 de abril de 2024. Na ocasião, Vorcaro organizou o evento ao lado do ministro e financiou uma degustação de whisky direcionada a autoridades brasileiras.
A interlocução continuou nos meses seguintes. Em 26 de fevereiro de 2025, um motorista do empresário enviou um aviso direto de Brasília: "Min Alexandre chegou". Semanas depois, entre 19 e 20 de março, uma reunião iniciada na casa do banqueiro avançou pela madrugada, recebendo posteriormente o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o senador Ciro Nogueira (PP-PI).
Outras confirmações extraídas pela PF ocorreram no âmbito pessoal de Vorcaro. Em novembro de 2024, o empresário escreveu à filha: "To com alexandre moraes". Em diferentes datas de 2025, ele justificou ausências à namorada, Martha Graeff, afirmando estar na companhia do magistrado, incluindo um encontro em um feriado na região de Campos do Jordão (SP). Em abril, durante uma ligação, a namorada estranhou a voz da pessoa ao telefone; ao questionar com quem falava, ouviu do banqueiro que se tratava de Moraes.
O relatório lista ainda oito momentos em que a realização do encontro não pôde ser atestada. Grande parte dessas articulações foi intermediada pelo ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, que tentou agendar almoços e cafés referindo-se a Moraes como "Alex" ou "o Careca".
A insistência por contato perdurou até as vésperas da deflagração das medidas cautelares. Em 15 de novembro de 2025, Vorcaro enviou mensagens de visualização única marcando uma reunião presencial. No dia seguinte, um dia antes de sua prisão, solicitou novo encontro de urgência.
"Bom dia. Ja estou em voo, vou pousar 14:20 e irei direto praí, tudo bem?"
A mensagem foi remetida diretamente ao ministro do STF, segundo a investigação.
Além da cúpula do Judiciário, a quebra de sigilo telemático expôs laços com a Procuradoria-Geral da República (PGR). O inquérito aponta forte proximidade entre Vorcaro e o procurador-geral Paulo Gonet. O canal principal era o advogado Ciro Soares — mesmo defensor que impetrou um habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ) tentando reverter a prisão preventiva do dono do Banco Master. O documento da PF também sublinha o custeio integral, pago por Vorcaro, das despesas de uma viagem a Londres feita por Pedro Gonet, filho do procurador-geral.
BRTimes — Jornalismo com independência e responsabilidade.