Banco Central registra queda nas transações em três dias; setor bancário vê efeito positivo, mas critica insegurança jurídica da medida
O número de transações via Pix caiu cerca de 10% nos últimos três dias, segundo dados do Banco Central, no período seguinte à publicação da medida provisória que proibiu as apostas esportivas on-line, as chamadas bets. O governo editou a norma no fim da tarde de sexta-feira (25).
No sábado (26), foram registradas 229,6 mil transações com Pix — não o volume financeiro movimentado —, queda de 11,0% ante a média dos quatro sábados anteriores. No domingo (27), o total somou 165,9 mil, retração de 12,0% na mesma base de comparação. Na segunda-feira (28), as transações chegaram a 213,0 mil, baixa de 7,4%. No acumulado dos três dias, a queda foi de 10,0% frente à média do mesmo intervalo nas quatro semanas anteriores.
"Óbvio que não é possível atribuir essa queda no Pix só à proibição das bets, mas isso dá uma dimensão do problema. Virou uma questão de saúde pública", afirma uma liderança do setor bancário. Um banqueiro de uma instituição de médio porte reforça a avaliação: "Acho que foi uma decisão acertada do governo. Eu não gosto de bets em nenhum sentido."
Parte da indústria bancária vê a proibição com bons olhos. Há indicadores, segundo essas fontes, de que as apostas on-line vinham corroendo o orçamento das famílias — especialmente as de baixa renda — e, com isso, pressionando a inadimplência.
Um levantamento do banco Citi, citado pelo Valor em reportagem anterior, mostra a dimensão do mercado: mais de 40 milhões de brasileiros já colocaram dinheiro em apostas esportivas, movimento que gerou cerca de R$ 20 bilhões em receita bruta no primeiro semestre deste ano. Para o Citi, a proibição "poderia deixar uma renda disponível mais elevada para as famílias, o que se traduziria em melhor qualidade dos ativos para os bancos, especialmente no segmento de baixa renda".
Nem todo o setor financeiro comemora sem ressalvas. Outra fonte bancária admite que a medida pode ter efeito levemente positivo sobre a renda disponível das famílias, mas questiona o método usado pelo governo para promover a mudança.
"Acho que as bets fazem muito mal à economia local, ao comércio e não deveriam ter sido reguladas como foram, mas derrubar por MP uma lei e estrutura jurídica que foi discutida por meses no Congresso é complicado", diz essa fonte, que também aponta efeitos sobre a questão fiscal decorrentes da insegurança jurídica criada pela medida.
No segmento de fintechs, a proibição já era, em certa medida, esperada. "As externalidades negativas se sobrepõem muito às externalidades positivas", pondera um interlocutor do setor, referindo-se aos efeitos das apostas sobre a sociedade em geral.
Esse mesmo interlocutor alerta para o impacto econômico sobre empresas que dependiam do setor de apostas. Segundo ele, algumas fintechs operam exclusivamente para as bets, enquanto outras — mesmo sem exclusividade — têm faturamento relevante com o fluxo de apostas ou com remessas internacionais ligadas a esse mercado. "Uma mudança abrupta vai trazer impactos econômicos para esse subsegmento", conclui.
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