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Economia

O impacto do tarifaço de Trump na configuração do comércio global

Um ano após o anúncio da “independência econômica”, dados mostram o isolamento da China e custos elevados para o consumidor americano

Washington — Um ano após o governo de Donald Trump surpreender o mercado internacional com o anúncio das tarifas do chamado “Dia da Libertação”, os fluxos comerciais globais apresentam uma fisionomia permanentemente alterada. Dados analisados pela Deutsche Welle revelam que a estratégia de “independência econômica” dos Estados Unidos gerou vencedores e perdedores claros, embora o custo final da operação esteja recaindo, em grande medida, sobre as famílias americanas.

Em 2 de abril de 2025, a Casa Branca impôs uma sobretaxa básica de 10% sobre todas as importações globais, elevando o sarrafo para até 50% no caso de 85 países que mantinham superávit comercial com os EUA. O movimento foi classificado por economistas como uma declaração de guerra comercial sem precedentes. “Não acho que as pessoas esperavam que o governo dos EUA basicamente declarasse uma guerra comercial contra o mundo inteiro”, afirma Haishi Li, economista da Universidade de Hong Kong.

A China foi o país mais atingido pela nova política. Entre abril e julho de 2025, os Estados Unidos importaram US$ 66 bilhões a menos do gigante asiático em comparação a anos anteriores. O Canadá também sofreu uma redução de US$ 24 bilhões no período, embora tenha conseguido mitigar perdas ao redirecionar seu comércio para outros parceiros internacionais.

Na contramão da retração chinesa, países como Vietnã, Tailândia e Taiwan tornaram-se os substitutos preferenciais dos importadores americanos. Taiwan, por exemplo, registrou um acréscimo de US$ 34 bilhões em exportações para os EUA apenas nos primeiros meses após o anúncio, apesar de enfrentar tarifas recíprocas de 34%. Na América Latina e na Austrália, o cenário também foi de crescimento, favorecido pelo status de “países dos 10%”, que mantiveram alíquotas menores.

O Brasil viveu um cenário de volatilidade diplomática e econômica sob o novo regime tarifário. Inicialmente penalizado com uma tarifa adicional de 40% — o que elevou a alíquota total para 50% em agosto de 2025 —, o país viu a sobretaxa ser revertida por decisão direta de Trump no fim de novembro, após intensas negociações.

Internamente, contudo, os resultados prometidos pela administração Trump ainda não se concretizaram na base industrial. Segundo Alex Durante, economista-sênior da Tax Foundation, a medida não trouxe a produção de volta para solo americano. “O último ano foi bastante ruim para a indústria e para o emprego”, destaca Durante, observando que apenas setores isentos, como os ligados à inteligência artificial, apresentaram fôlego.

O impacto mais tangível foi sentido nos cofres públicos e no bolso do cidadão. Em 2025, o Tesouro dos EUA arrecadou US$ 287 bilhões em tarifas, o triplo da média histórica. Esse montante representa cerca de 5% de todos os impostos coletados no país. Na prática, estima-se que as tarifas tenham custado aproximadamente mil dólares por domicílio americano em 2025, refletindo o aumento de preços e a redução de salários adotada pelas empresas para absorver os custos alfandegários.

O cenário para o restante de 2026 permanece nebuloso. Em fevereiro, a Suprema Corte americana derrubou a base legal das tarifas originais, mas o governo reagiu com uma nova alíquota geral de 15%. Para Haishi Li, a incerteza agora é a única constante: “Se você perguntar o que vai acontecer neste ano, acredito que ninguém saiba responder”.


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