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Casal divide piscina com ursos na Califórnia, mas autoridades alertam para os riscos à segurança pública

Monrovia (EUA) – O exercício do direito à propriedade privada permite que cada cidadão decida como utilizar o próprio quintal, mas a romantização irresponsável da vida selvagem pode cobrar um preço alto da comunidade. Em Monrovia, no condado de Los Angeles (sul da Califórnia), o casal Brian Gordon e Ricardo Martínez optou por transformar a área de lazer de sua residência em um verdadeiro balneário para ursos-negros. A decisão, embora pacífica, esbarra nos alertas de especialistas sobre os riscos da "disneyficação" de animais selvagens e na dura realidade da segurança pública.

A casa está estrategicamente localizada no sopé das montanhas de San Gabriel, fazendo fronteira com a Floresta Nacional de Los Angeles — uma imensa reserva de 2.830 km². A região abriga uma população de aproximadamente 1,6 mil ursos, parcela de um total de mais de 60 mil animais da espécie em toda a Califórnia.

Quando adquiriu o imóvel, Gordon teve a reação instintiva de quem busca proteger seu patrimônio e sua integridade: "Nunca tinha visto um urso pessoalmente. Pensei: 'Vamos simplesmente construir um muro grande com arame farpado'", relembra. No início, a defesa do território incluía buzinas de ar comprimido, gritos e até uma arma de paintball com projéteis de borracha macia. Contudo, guiado por um apelo sentimental, o casal recuou. "Não achávamos certo. Decidimos que, desde que eles não entrassem em casa nem revirassem o lixo, não havia problema em se aproximarem", relata Martínez.

A Maddie e seus dois filhotes adoram passar o tempo na piscina de Brian Gordon e Ricardo Martínez — Foto: @poolbearlife

Os Visitantes e o Perigo da "Disneyficação"

Hoje, os animais frequentam a piscina semanalmente. O casal, que se tranca em casa para manter uma "distância prudente", chegou a batizar os predadores. Há a ursa Maddie, que conheceu a propriedade em 2023, perdeu seus filhotes originais e retornou neste ano com uma nova ninhada. Há Punky, uma ursa de 1 ano classificada como "bagunceira" por estourar infláveis da piscina, e Nappy, que tem o hábito de dormir por horas nos degraus da água.

No entanto, a comunidade científica e as forças de segurança olham para essa convivência com extrema cautela. Wilson Sherman, pesquisador da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), estuda a interação entre comunidades e ursos-negros e alerta para a armadilha do sentimentalismo.

Embora ataques fatais sejam raríssimos — com apenas um registro em toda a história da Califórnia —, Sherman adverte sobre os riscos da superexposição promovida por redes sociais e câmeras de segurança. "Sempre existe o risco da 'disneyficação', de oferecer uma imagem açucarada demais. Eles não são ursos de pelúcia; continuam sendo animais selvagens", crava o pesquisador, ressaltando que amar os ursos significa, na verdade, "estabelecer limites saudáveis".

A responsabilidade individual é o primeiro passo para a ordem. Sherman destaca que os ursos são onívoros inteligentes que se adaptam rapidamente para buscar calorias fáceis. O pesquisador enfatiza a necessidade de as comunidades restringirem o acesso ao lixo e não deixarem alimentos ao ar livre, evitando atrair os animais para áreas residenciais.

Segurança Pública em Primeiro Lugar

Quando os limites são rompidos e a vida humana é ameaçada, o Estado precisa intervir de forma letal e definitiva. Foi o que ocorreu em março de 2026 com uma ursa-negra apelidada de Blondie. O Departamento de Pesca e Vida Selvagem da Califórnia sacrificou o animal após ela tentar atacar com uma patada uma mulher que passeava pacificamente com seu cachorro pelas ruas de Monrovia.

O abate, amplamente criticado por ativistas, foi fundamentado em ciência e na proteção do cidadão. Testes de DNA comprovaram que Blondie não apenas foi a autora deste ataque, como também foi a responsável por uma agressão anterior, em junho de 2025, contra um idoso que estava sentado na varanda de sua própria casa.

Gordon, que já havia recebido a mesma ursa em seu jardim sem incidentes, deixou-se levar pelo ativismo e organizou uma petição que reuniu quase 6 mil assinaturas tentando impedir o sacrifício. "Foi algo devastador. Blondie representa todas as mães ursos", lamentou Gordon.

As autoridades, no entanto, agiram com a firmeza necessária que a gestão da segurança pública exige. Um porta-voz do departamento esclareceu que a eutanásia é o último recurso, aplicado quando o animal cruza a linha vermelha e se torna um risco inaceitável para a população. A ideia de simplesmente transferir o animal agressor foi descartada tecnicamente: "Os ursos têm uma grande memória espacial e frequentemente retornam a áreas que lhes são familiares", explicou o órgão, ressaltando que a medida evita colocar outros cidadãos em perigo. Os filhotes da ursa abatida foram encaminhados a um centro de reabilitação.

Hoje, Gordon e Martínez administram a conta @poolbearlife no Instagram, onde compartilham sua rotina e tentam conscientizar o público. O casal reconhece, no entanto, que sua decisão de transformar a casa em um refúgio para predadores de grande porte não é um modelo universal. "Isso funciona para nós, no lugar onde vivemos", admite Gordon, enquanto a vizinhança segue lidando com as consequências de dividir o espaço urbano com a natureza indomável.

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