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Ciência

Cientista Tatiana Sampaio anuncia publicação de estudo sobre polilaminina

Proteína para lesões medulares segue em fase de testes; 84 pacientes já garantiram acesso compassivo ao tratamento experimental no Brasil.

A pesquisadora Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), declarou à agência Reuters que o estudo revisado por pares sobre a polilaminina está próximo de ser publicado. A cientista, contudo, não revelou a data de divulgação nem qual periódico científico chancelou os dados da terapia experimental voltada à regeneração de lesões na medula espinhal.

A substância é uma versão sintetizada em laboratório da laminina, proteína presente no desenvolvimento embrionário humano que atua na conexão de neurônios. A expectativa clínica é que, ao ser aplicada no local do trauma, a molécula estimule os nervos a criarem novas rotas, restabelecendo a função motora parcial ou total. O desenvolvimento do composto ganhou evidência nacional após a divulgação de resultados preliminares em 2024 e o licenciamento da patente pela farmacêutica Cristália.

O interesse pela droga extrapolou o ambiente acadêmico. Pacientes de diversas regiões do Brasil e do exterior passaram a buscar o tratamento, gerando uma corrida judicial. Sampaio tornou-se figura pública, a ponto de ser chamada de “a maior celebridade que temos aqui hoje” pelo cantor João Gomes durante um desfile de Carnaval. Nos bastidores institucionais, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, confirmou que o medicamento inaugurou as análises do novo Comitê de Inovação da Anvisa. “Se o estudo clínico apresentar bons resultados, pode ser ofertado o mais rápido possível à população”, afirmou o ministro.

O percurso até a aprovação, no entanto, exige rigor metodológico e validação técnica. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou um ensaio clínico de fase 1 focado em segurança, contemplando cinco pacientes com lesões agudas completas, com idades entre 18 e 72 anos. A aplicação deve ocorrer em até 72 horas após o trauma. A Cristália, que já investiu mais de R$ 110 milhões no projeto, atende atualmente 84 pessoas por meio de uso compassivo — mais da metade, 44 pacientes, por determinação judicial, e os demais 40 por via administrativa.

Apesar do otimismo em torno dos testes, a comunidade científica mantém postura conservadora. Representantes da Fundação Christopher & Dana Reeve e da Academia Brasileira de Neurologia reforçam que o tratamento é apenas mais uma frente experimental em estágio inicial. Especialistas advertem que pacientes com lesões cervicais podem apresentar recuperação motora espontânea, o que torna obrigatória a realização de ensaios controlados para isolar a eficácia real da medicação.

O escrutínio acadêmico já impôs reveses ao projeto e atrasou a publicação. Em março deste ano, versões anteriores do artigo foram recusadas por publicações de prestígio, como a Nature Communications e o Journal of Neurosurgery. Os pares criticaram a divergência na taxa de recuperação adotada como parâmetro e a falta de registro prévio do estudo em bases internacionais de pesquisa clínica. Para reverter as recusas, Sampaio precisou corrigir distorções estruturais no pré-print.

Entre as retificações, a pesquisadora admitiu um erro em um gráfico que atribuía 400 dias de acompanhamento a um voluntário que, de fato, faleceu cinco dias após a cirurgia, justificando a falha como erro de digitação. A equipe também precisou readequar a apresentação de exames de eletromiografia. A imagem original, que supostamente indicava regeneração nervosa, exibia dados brutos e foi classificada pela cientista como “mal programada”.

Outro ponto sensível de debate é o choque medular — um estado temporário de perda de reflexos logo após o trauma que pode subestimar a gravidade real da lesão inicial. Embora a cientista afirme que a condição foi descartada nos voluntários, o tempo exigido para a confirmação padrão-ouro inviabiliza a janela estrita de 72 horas para a aplicação do produto. O estudo original também sofreu críticas metodológicas por omitir a quantidade de pacientes triados e posteriormente descartados da pesquisa.

Antes de alcançar os testes compassivos em humanos, a polilaminina, estudada há mais de 20 anos pela UFRJ, apresentou resultados em ensaios veterinários. Um estudo publicado na revista Frontiers in Veterinary Science acompanhou seis cães paraplégicos durante seis meses. Após a injeção medular, quatro animais voltaram a dar passos e dois registraram avanços mais discretos, com ausência de efeitos colaterais graves.

Nos ensaios iniciais com humanos, compostos por oito voluntários com lesões severas, dois pacientes não resistiram à gravidade dos ferimentos originais. Os seis sobreviventes apresentaram ganhos motores progressivos abaixo da área lesionada. O caso mais proeminente é o de Bruno Drummond de Freitas, que retomou a capacidade de caminhar sem suporte após dois anos de reabilitação. Diante do crivo acadêmico e das altas expectativas, a pesquisadora mantém a defesa do potencial da terapia. “Tem algum mérito em não desistir”, declarou Sampaio.


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