Governo recorre a exclusões bilionárias de gastos para cumprir meta fiscal “no papel”, enquanto déficit real atinge o pior patamar desde 2023.
O cenário fiscal brasileiro sofreu uma deterioração alarmante em 2025. O Tesouro Nacional confirmou nesta quinta-feira (29) que o governo registrou um **déficit primário de R$ 61,7 bilhões**. O número revela um agravamento dramático na gestão das contas públicas, representando uma piora de 32% em comparação ao rombo de R$ 42,9 bilhões registrado no ano anterior.
Este é o pior desempenho fiscal desde 2023, ano em que o rombo atingiu a marca histórica de R$ 250,1 bilhões.
A “Mágica” do Cumprimento da Meta
Apesar do buraco bilionário, o governo anunciou o cumprimento da meta fiscal. Isso só foi possível graças a uma série de manobras contábeis e exclusões de despesas permitidas pelo novo arcabouço fiscal, que mascaram a realidade do fluxo de caixa.
Para evitar o descumprimento formal da regra, foram retirados da conta final:
- R$ 41,15 bilhões em precatórios (dívidas judiciais);
- R$ 2,83 bilhões referentes a ressarcimentos de aposentados;
- R$ 2,5 bilhões gastos em projetos de defesa;
- R$ 2,2 bilhões em despesas temporárias com educação.
Somando a margem de tolerância de R$ 31 bilhões (para cima ou para baixo) e essas deduções, o governo poderia ter apresentado um rombo de até **R$ 79,65 bilhões** e ainda assim estaria tecnicamente “dentro da meta”.
Governo minimiza o problema
Na contramão dos números negativos, o secretário do Tesouro, Rogério Ceron, classificou o resultado como “muito satisfatório diante de todas as adversidades”. O governo projeta entregar um superávit primário no próximo ano, mas condiciona a estabilização da dívida pública a um superávit de cerca de 1% do PIB, uma meta que o secretário considera “não difícil” de alcançar em um horizonte curto.
Enquanto isso, o aumento das receitas (3,2% em termos reais) não foi suficiente para estancar a sangria das despesas, resultando no aprofundamento do déficit.