O avanço do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã começa a gerar efeitos concretos no Brasil, acendendo um alerta dentro do Senado Federal. Durante audiência na Comissão de Relações Exteriores (CRE), o chanceler Mauro Vieira admitiu que a guerra já provoca “desequilíbrio e transtornos em todo o mundo”, com impactos diretos na economia brasileira.
A declaração foi feita após questionamento da senadora Tereza Cristina (PP-MS), que demonstrou preocupação com a escalada do conflito e seus reflexos no comércio internacional.
Petróleo, comércio e inflação: efeito dominó
Segundo o ministro, o Brasil deve sentir rapidamente os efeitos da guerra, especialmente com a alta no preço do petróleo e a desorganização das rotas comerciais no Golfo Pérsico — uma das regiões mais estratégicas do planeta.
O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, como forma de retaliação, é considerado um dos pontos mais críticos. A via concentra o tráfego de cerca de 250 navios por dia e é essencial para o fluxo global de energia.
Com isso, exportadores brasileiros já enfrentam dificuldades logísticas e são obrigados a buscar rotas alternativas, o que encarece operações e pode pressionar ainda mais a inflação no país.
Dependência externa exposta
Outro ponto sensível levantado foi a dependência brasileira de fertilizantes importados. O Oriente Médio figura como um dos principais fornecedores desses insumos, fundamentais para o agronegócio nacional.
Mauro Vieira reconheceu que o Brasil ainda está longe da autossuficiência e classificou o cenário como “complexo”, defendendo a diversificação de fornecedores. Entre as alternativas citadas estão países da África, a Bolívia e a região do Azerbaijão.
Na prática, a crise internacional escancara uma fragilidade estrutural: o Brasil segue altamente dependente de insumos estratégicos vindos do exterior, o que amplia os riscos em momentos de instabilidade global.
Escalada preocupa e pode se prolongar
A senadora Tereza Cristina alertou que o conflito, inicialmente visto como pontual, já se prolonga por semanas e tende a se agravar. Segundo ela, países do Oriente Médio que nem participavam diretamente da guerra já estão sendo atingidos.
Na avaliação da parlamentar, o cenário é “muito sério” e pode desencadear uma crise ainda maior na região, com impactos globais.
Surpresa e críticas à condução internacional
O chanceler afirmou que o Itamaraty foi pego de surpresa pela ofensiva militar de americanos e israelenses, especialmente porque negociações com o Irã estavam em andamento.
Segundo ele, mediadores internacionais também não esperavam a escalada do conflito. O ministro relembrou tentativas anteriores de acordo nuclear, incluindo a atuação do Brasil em 2010, quando o país participou de negociações diplomáticas com o Irã.
Ele também indicou que o fracasso das tratativas recentes ocorreu após a retirada de uma das partes da mesa — em referência indireta aos Estados Unidos.
Retirada de brasileiros e operação emergencial
Diante da escalada da guerra, o governo brasileiro iniciou uma operação para retirada de cidadãos da região. Cerca de 8 mil brasileiros que estavam em trânsito em países como Emirados Árabes Unidos, Catar e Bahrein precisaram deixar áreas consideradas de risco.
A saída foi realizada por rotas terrestres até a Arábia Saudita, de onde os brasileiros puderam embarcar para outros destinos.
A guerra no Oriente Médio já deixou de ser um problema distante e passa a afetar diretamente o Brasil — seja no bolso do consumidor, no agronegócio ou na estabilidade econômica.
O episódio evidencia não apenas os riscos geopolíticos globais, mas também a falta de preparo estrutural do país para lidar com crises internacionais, especialmente em setores estratégicos.