Lorlatinibe mantém mais da metade dos pacientes sem progressão após sete anos, mas custa R$ 37 mil por mês e está fora do SUS
Durante décadas, o diagnóstico de câncer de pulmão avançado equivalia, na prática, a poucos meses de vida. Um estudo com acompanhamento de sete anos indica que esse quadro está mudando: mais da metade dos pacientes tratados com lorlatinibe — comprimido tomado uma vez ao dia — permaneceu todo esse período sem a doença progredir, resultado inédito para a doença em estágio avançado.
A pesquisa identificou que 55% dos participantes seguiam vivos e sem evolução do tumor após sete anos de uso do medicamento. O lorlatinibe não serve para qualquer paciente com câncer de pulmão: ele age apenas quando o tumor é causado por uma alteração genética chamada rearranjo de ALK, presente em cerca de 3% a 7% dos casos do tipo mais comum da doença.
Mesmo restrito a essa parcela, o avanço ganha relevância porque o câncer de pulmão é o que mais mata homens e mulheres no Brasil, com 31.237 mortes por ano, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA) — o equivalente a cerca de 85 óbitos por dia.
Uma terapia feita sob medida
O lorlatinibe representa uma terapia-alvo: medicamentos criados para atacar a alteração genética específica que faz o tumor crescer, em vez de tratar todo câncer de pulmão com o mesmo protocolo. O rearranjo no gene ALK faz a célula produzir uma proteína defeituosa que funciona como um interruptor de crescimento permanentemente ligado, e o medicamento age bloqueando esse sinal.
O remédio foi desenvolvido para superar duas limitações de gerações anteriores de inibidores de ALK: a resistência que o tumor cria ao longo do tratamento e a dificuldade de alcançar o cérebro, onde metástases atingem entre 25% e 40% dos pacientes já nos dois primeiros anos após o diagnóstico. O lorlatinibe consegue atravessar a barreira hematoencefálica, a proteção natural que dificulta a entrada de substâncias no cérebro.
Para Gustavo Schvartsman, oncologista do Hospital Sírio-Libanês, o resultado reflete uma evolução gradual dessas terapias. "Nunca alguém passava de cinco anos sem a doença progredir quando só existia quimioterapia. Com os inibidores de primeira geração, foi para 5% ou 10% dos pacientes; com a segunda geração, 20% a 30%; agora chegamos a 55%. O avanço é muito grande e vemos um passo enorme no dia a dia do paciente", afirma.
Uma nova perspectiva
Paula Piteri descobriu a doença em 2020, aos 38 anos, em um exame de rotina, sem histórico de tabagismo. Retirou o tumor e acreditava estar curada, até receber, em 2025, o diagnóstico de que o câncer havia voltado. "Foi um choque, eu sou mãe de três crianças e isso podia mudar minha vida completamente", conta.
Hoje ela usa o lorlatinibe fornecido pelo plano de saúde: o medicamento está na lista de cobertura obrigatória da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
"É muito bom ter perspectiva, saber que eu tenho vida para viver. Eu quero fazer parte disso e viver por muitos anos ainda."
Os resultados, porém, deixam questões em aberto. No estudo, 45% dos pacientes não responderam à terapia como esperado, e ainda não se sabe por que ela falha nesses casos. Para o oncologista Stephen Stefani, o dado de sete anos precisa ser lido como parte de uma trajetória histórica em que cada geração de medicamento ampliou o horizonte de controle da doença. "A diferença de eficácia se torna muito gritante quando você vê essa análise de sete anos e é um resultado relevante para o paciente", avalia.
Há também efeitos colaterais a considerar. Mais da metade dos pacientes — 52% — relatou algum efeito no sistema nervoso central, como alterações cognitivas e mudanças de humor, e eventos adversos de grau 3 ou 4, os mais graves, ocorreram em 77% dos casos. Matheus Henrique Dias, biomédico especialista em biologia molecular que pesquisa medicamentos contra o câncer na Holanda, reconhece o avanço, mas pondera sobre o custo para a qualidade de vida. "É importante que as pessoas vivam, mas é muito importante que elas continuem sendo, em boa medida, elas mesmas", diz.
Obstáculos de acesso
Antes de chegar ao tratamento, o paciente depende de um diagnóstico molecular que identifique o rearranjo de ALK — exame nem sempre disponível, inclusive para quem tem plano de saúde. "Não adianta fazer o teste num sistema onde o remédio não vai estar disponível. E não adianta ter o remédio se o paciente não conseguiu o diagnóstico correto", resume Schvartsman.
O custo do medicamento é a segunda barreira. Pela tabela de preços do Ministério da Saúde, a caixa com 30 comprimidos de lorlatinibe custa, no máximo, R$ 37 mil. Mantido pelos sete anos observados no estudo, o tratamento ultrapassaria R$ 3,1 milhões por paciente — valor que hoje só está acessível a quem tem plano de saúde, obtém o remédio na Justiça pelo SUS ou paga diretamente.
O medicamento chegou a ser avaliado pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), mas não foi incorporado por causa do custo. "O Comitê de Medicamentos considerou que, apesar das evidências apresentadas e dos benefícios do tratamento, a relação de custo-efetividade não aponta eficiência para o SUS, tendo em vista que nenhuma das intervenções ficou abaixo do limite de custo-efetividade", registrou a comissão em relatório.
O Ministério da Saúde foi consultado pelo G1 sobre uma eventual nova avaliação do caso, mas não respondeu até a publicação da reportagem.
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