Estratégia estadual atrela transferência de renda à qualificação profissional e reduz dependência de assistência governamental no estado.
Campo Grande — A devolução voluntária de um cartão de benefício social ilustra uma guinada nos índices demográficos de Mato Grosso do Sul. Desde 2023, 28,4 mil cidadãos deixaram o programa estadual Mais Social após alcançarem autonomia financeira. O movimento reflete uma diretriz de gestão que condiciona a proteção de renda a iniciativas de qualificação profissional, acesso à educação e reinserção no mercado de trabalho.
Os indicadores econômicos estaduais dão lastro à transição. Nos últimos quatro anos, a extrema pobreza no estado recuou 60%, caindo de 4% para 1,6% da população — número que representa mais de 40 mil indivíduos superando as condições mais precárias de vida. Em um recorte mais recente, de 2024 a 2026, 44,6 mil sul-mato-grossenses saíram da linha da pobreza, enquanto mais de 44 mil famílias deixaram o quadro de insegurança alimentar.
A trajetória do trabalhador Marcos Gabriel de Arruda Calonga, de 34 anos, materializa as estatísticas. Morador do bairro Parati, na capital sul-mato-grossense, ele recorreu ao Mais Social após perder o emprego em uma lavanderia, evento que ameaçou a segurança alimentar da esposa, de seus quatro filhos e da sogra. A assistência garantiu estabilidade temporária enquanto ele buscava novos rumos profissionais.
Durante o período em que contou com o suporte do Estado, Marcos concluiu um curso de barbeiro, atuou como zelador em uma igreja e, posteriormente, garantiu uma vaga formal como vigilante em uma entidade sindical rural. Com a recuperação da própria renda e a entrada dos dois filhos mais velhos no mercado de trabalho formal, a família decidiu devolver o benefício.
"Conversamos e entendemos que continuar recebendo seria injusto", relatou Marcos ao oficializar a saída. "Hoje existem pessoas que precisam mais do que nós. O programa nos ajudou muito, mas agora conseguimos seguir sozinhos".
O modelo implementado pela gestão do governador Eduardo Riedel (Progressistas) busca evitar a cristalização da pobreza e a dependência crônica de auxílios. A estratégia integra a política social a programas paralelos, fornecendo apoio para que mães solo mantenham os filhos seguros durante o expediente e financiando estudantes de baixa renda por meio do MS Supera, voltado ao ensino técnico e universitário.
Para o chefe do Executivo, a intervenção pública deve pavimentar a independência. Nas palavras de Riedel, a assistência social no estado caminha emparelhada à educação e à geração de empregos para promover mudanças estruturais. "O papel do Estado é estar presente quando a família mais precisa, mas também criar condições para que ela conquiste autonomia", declarou o governador.
A taxa de desocupação de 2,4% registrada atualmente em Mato Grosso do Sul — a segunda menor do Brasil e a menor da série histórica estadual — atua como motor primário desse ciclo. Para cidadãos que superaram a incerteza alimentar, o desfecho vai além dos indicadores contábeis. A entrega do cartão do programa simbolizou, para famílias como a de Marcos, a recuperação da autonomia e a retomada de planos futuros longe da dependência estatal.
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