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Mato Grosso do Sul

Bioenergia transforma resíduos da cana em combustível e requalifica economia sul-mato-grossense

Produção de biometano e eletricidade a partir de bagaço e vinhaça movimenta bilhões, mas impõe o desafio de fixar postos de trabalho no interior.

O ciclo produtivo da cana-de-açúcar em Mato Grosso do Sul deixou de se encerrar quando o etanol atinge os tanques de armazenamento ou o açúcar sai da linha de produção. Uma reconfiguração industrial está convertendo resíduos orgânicos, antes descartados ou subutilizados, em fontes de energia primária. O bagaço agora alimenta caldeiras para geração elétrica, enquanto a vinhaça e a torta de filtro assumem o protagonismo na fabricação de biogás e biometano.

A transição tecnológica reflete diretamente no porte econômico do setor. O estado encerrou o ano de 2025 com 22 usinas de bioenergia ativas. De acordo com a Biosul, a cadeia sucroenergética sustentava mais de 33 mil empregos diretos, injetando anualmente cerca de R$ 1,3 bilhão em salários na economia regional. Na safra de 2024/2025, o volume processado alcançou 48,5 milhões de toneladas de cana, rendendo 4,2 bilhões de litros de etanol — somadas as extrações de cana e milho.

Para manter esse maquinário operando ininterruptamente, o perfil do trabalhador precisou mudar. O esforço braçal cede espaço para a manutenção preventiva, leitura de painéis e automação. Operadores, eletricistas e técnicos em controle ambiental passaram a dividir o parque industrial com as antigas funções de campo.

Jane Rizzo Martinez materializa essa mudança. Auxiliar de serviços gerais na área de Capina Química da usina Cocal, em Rio Brilhante, ela passou por treinamentos normativos específicos, como a NR-31, para manusear equipamentos de proteção e materiais contaminados. "É um trabalho dinâmico, que me permite aprender todos os dias, conhecer pessoas e me desenvolver profissionalmente", relata.

A rotina na usina também permitiu a reorganização familiar. Jane cumpre o turno A, enquanto o marido trabalha no turno B. O revezamento garante que o filho do casal, que possui necessidades especiais, tenha acompanhamento permanente em casa — os outros dois filhos também estão empregados na indústria. "Trabalhar na Cocal representa estabilidade e a oportunidade de construir uma vida melhor para a minha família", afirma Jane. "Para mim, trabalhar é viver."

A modernização, contudo, gera assimetrias. O governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel (Progressistas), aponta que a exigência técnica cria uma nova linha de corte no mercado de trabalho. Para o chefe do Executivo, o avanço tecnológico abre vagas superiores, mas simultaneamente "cria uma distância entre quem conseguiu se qualificar e quem continua restrito a atividades temporárias ou menos remuneradas".

Uma nova fronteira dessa escalada de investimento está sendo erguida em Nova Alvorada do Sul. A companhia Atvos direciona mais de R$ 350 milhões para construir uma planta de biometano baseada na decomposição da vinhaça. Com operação prevista até o final de 2026, a unidade deve entregar 28 milhões de metros cúbicos do gás por safra.

O foco inicial é a substituição do diesel na própria frota de transporte agrícola. O vice-presidente de Operações da empresa, Wilson Lucena, estima que a mudança evitará a emissão de até 50 mil toneladas de carbono anuais. "A previsão é que 50% dos caminhões sejam operados com o biometano produzido aqui, reduzindo emissões e tornando nossa operação ainda mais sustentável", detalha Lucena, lembrando que a corporação já é responsável por 11 mil postos de trabalho no estado.

O desafio central do governo estadual agora é garantir que o volume financeiro dessa economia circular não fique restrito às planilhas corporativas. Os números mostram que grandes plantas industriais geram flutuações agressivas no emprego. Nova Alvorada do Sul, impulsionada pelas obras, fechou 2025 com 1.151 novas vagas formais. Na contramão, polos consolidados como Rio Brilhante e Caarapó amargaram perdas de 272 e 59 postos, respectivamente.

O fenômeno ocorre porque a fase de construção civil de uma usina incha artificialmente a contratação temporária, que esvazia assim que os canteiros são desmontados. Nas palavras de Riedel, a verdadeira descentralização da riqueza exige políticas locais contundentes. "O desafio é transformar os períodos de investimento em uma base econômica mais duradoura: trabalhadores qualificados, fornecedores locais e atividades que continuem movimentando renda depois que os canteiros forem desmontados", defende o governador.


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