Francisco Sanseverino e Janice Ascari concordaram em manter o procurador-geral à frente dos processos, mas divergiram sobre a necessidade de investigar mensagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
O Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) iniciou nesta sexta-feira (25) a deliberação sobre a conduta do procurador-geral da República, Paulo Gonet, nas investigações do extinto Banco Master. O relator do caso, subprocurador-geral Francisco Sanseverino, votou pelo arquivamento e contra a abertura de uma investigação criminal. A conselheira Janice Ascari divergiu parcialmente, defendendo a designação de um membro para conduzir uma apuração preliminar. Ambos concordaram, porém, em rejeitar o afastamento do chefe do Ministério Público dos processos.
Com a ausência de Gonet — que não participa da votação por figurar como alvo do procedimento —, oito integrantes da cúpula votam sob a presidência do vice-presidente do colegiado, Nicolao Dino. O placar parcial está em 1 a 1 sobre o avanço das apurações e 2 a 0 contra o afastamento do procurador-geral. O caso representa uma deliberação inédita na história do órgão.
A análise tem origem nos desdobramentos da Operação Compliance Zero. A Polícia Federal recuperou mensagens no celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, que sugerem uma interlocução com Gonet, majoritariamente intermediada pelo advogado Ciro Soares. O material veio a público após o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirar o sigilo dos autos. O Banco Master teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, o que culminou na prisão preventiva de Vorcaro.
Sanseverino estruturou seu voto apontando a ausência de elementos mínimos de materialidade ou autoria de crime. O relator ressaltou que a perícia não encontrou o contato de Gonet salvo no aparelho de Vorcaro, enfraquecendo a tese de amizade íntima. Segundo ele, diálogos de terceiros não podem ser interpretados de forma isolada.
O encontro entre Gonet e o ex-banqueiro em Londres, em abril de 2024 — que gerou repercussão interna após a divulgação de uma foto com charutos e uísque —, foi classificado por Sanseverino como um evento social e superficial. O relator indicou ainda que, ao tomar conhecimento das suspeitas contra a instituição financeira em julho de 2025, o procurador-geral ofereceu suporte institucional aos investigadores em São Paulo e no Distrito Federal. Para Sanseverino, um eventual pedido de suspeição deve ser tratado exclusivamente no STF, não no conselho.
A divergência surgiu com o voto de Janice Ascari. A conselheira pontuou que o relatório policial, finalizado em 72 horas, carece de profundidade. Embora tenha concordado que não há indícios de vantagens indevidas recebidas pelo procurador-geral ou de interferência em benefício de Vorcaro, Ascari sustentou que o arquivamento imediato seria prematuro.
Ascari defendeu a necessidade de esclarecer questões pontuais. O foco recai sobre as tratativas de uma viagem a Londres em 2025 para Pedro Gonet, filho do procurador-geral, que teria recebido autorização de custeio por Vorcaro. A conselheira também questionou o conteúdo de uma ligação intermediada por Ciro Soares em março de 2025 e o significado de mensagens onde o advogado afirma estar indo ao encontro do PGR.
Para sanar as dúvidas, Ascari propôs a designação de um subprocurador-geral com independência para realizar diligências preliminares e decidir posteriormente por um arquivamento ou pela abertura formal de investigação criminal.
A pauta em julgamento analisa a conduta de Gonet sob três eixos: a condução das investigações sobre a liquidação do banco, a atuação frente à prisão preventiva de Vorcaro e o gerenciamento geral do caso no Ministério Público Federal. Além de viagens e encontros, os relatórios da PF mencionam articulações para influenciar a eleição do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais (CNPG) e conversas para evitar medidas do Banco Central.
Em manifestações aos autos, Gonet descreveu seu contato com o ex-banqueiro como brevíssimo e banal, negando qualquer proximidade. Paralelamente, a Procuradoria-Geral da República atua no STF pela anulação do relatório da Polícia Federal, argumentando que o ministro André Mendonça extrapolou suas competências ao ordenar as apurações sem o requerimento do Ministério Público.
A votação no conselho seguirá a ordem de antiguidade dos membros. Se a maioria aprovar a apuração e forem constatados indícios consistentes ao final do processo, o caso retornará ao STF, foro competente para a abertura de inquérito contra o chefe do órgão.
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