O conselho teológico encarregado de apontar o líder máximo declara que a deliberação já foi concluída, embora a identidade do escolhido permaneça em sigilo.
O Estado iraniano comunicou neste domingo (8) a definição de um substituto para o líder supremo Ali Khamenei, que perdeu a vida durante um ataque aéreo executado por forças dos Estados Unidos e de Israel no final do mês de fevereiro, marcando o começo da investida contra a nação.
Conforme reportado pela agência de notícias Mehr, a escolha do novo ocupante do cargo máximo foi realizada pela Assembleia de Peritos — a instituição incumbida de nomear o comandante central da República Islâmica.
O dado foi ratificado por Ahmad Alamolhoda, integrante do colegiado. A identidade do eleito, no entanto, segue mantida sob sigilo.
Alamolhoda complementou que a divulgação formal agora está nas mãos do diretor do secretariado da Assembleia de Peritos, Hosseini Bushehri, a quem cabe o dever de comunicar a resolução ao público, segundo informações da agência semioficial iraniana Mehr.
As forças armadas de Israel declararam que buscarão “perseguir todos os sucessores e qualquer pessoa envolvida na escolha de um novo líder”.
Entenda a dinâmica de sucessão iraniana
O Irã tornou público neste domingo (8) que já selecionou um herdeiro político para a vaga do líder supremo Ali Khamenei, morto em uma ofensiva de mísseis coordenada pelos Estados Unidos e por Israel no encerramento de fevereiro, deflagrando o ataque ao território.
Com base nos despachos da agência Mehr, a indicação do sucessor ocorreu por meio da Assembleia de Peritos — entidade com a missão de eleger o líder soberano da República Islâmica.
O detalhe foi validado pelo membro do conselho, Ahmad Alamolhoda. A figura escolhida, contudo, ainda não teve seu nome revelado. “O líder supremo já foi escolhido”, declarou.
Alamolhoda detalhou que a proclamação oficial agora é responsabilidade do líder do secretariado da Assembleia de Peritos, Hosseini Bushehri, encarregado de publicizar a decisão, conforme a agência Mehr.
O Exército israelense garantiu que vai “perseguir todos os sucessores e qualquer pessoa envolvida na escolha de um novo líder”.
A Assembleia de Peritos é formada por um total de 88 aiatolás, possuindo a função de determinar o líder principal da nação persa desde a eclosão da Revolução Islâmica, no ano de 1979.
Durante os dias recentes, o embate também afetou de modo direto a engrenagem política do regime. Na última terça-feira (3), as tropas de Israel bombardearam um complexo associado à Assembleia de Peritos na localidade de Qom, região sul do Irã, de acordo com veículos de comunicação israelenses e a agência estatal do Irã. Na ocasião da ofensiva, o edifício abrigava um encontro de aiatolás.
Ali Khamenei faleceu em 28 de fevereiro, em decorrência de um ataque aéreo orquestrado pelos Estados Unidos e por Israel direcionado a alvos estratégicos em Teerã.
A ofensiva também vitimou lideranças militares e membros do alto escalão do governo iraniano, provocando uma intensa escalada bélica na região do Oriente Médio, caracterizada por ataques mútuos envolvendo o Irã, Israel e destacamentos norte-americanos posicionados no território.
Conflito atinge o 9° dia
Na parte da madrugada deste domingo (8), militares israelenses alvejaram reservatórios de combustível situados em Teerã, a capital iraniana, gerando chamas de grandes proporções e resultando na morte de quatro indivíduos.
Conforme a agência AFP, quatro instalações de armazenamento de petróleo e um centro de logística sofreram impactos. Os ataques comprometeram a malha de suprimentos e causaram a paralisação provisória da entrega de combustíveis no perímetro urbano. Registros visuais do incêndio foram validados pela Reuters.
Os reflexos do embate armado já começam a alcançar outras nações: Bangladesh iniciou um processo de racionamento de combustíveis motivado por dificuldades no fornecimento associadas à guerra no Oriente Médio.
Trajetória de Khamenei
Nascido no ano de 1939 na cidade de Mashhad, considerada sagrada para a vertente xiita, Ali Khamenei era o segundo de oito filhos, oriundo de um núcleo familiar humilde e extremamente devoto. Sua juventude ocorreu sob o regime monárquico do xá Reza Pahlavi — época em que a nação iraniana mantinha aliança com os Estados Unidos e até mesmo com Israel.
O líder máximo jamais consentiu com a implementação de reformas na república islâmica, esmagando a oposição com rigor. No panorama global, Khamenei preservava uma postura de hostilidade em relação aos Estados Unidos e recusava-se a admitir a existência do Estado de Israel.
No momento em que a população iraniana passou a se insurgir contra a monarquia, ele integrou os movimentos de protesto. Acabou encarcerado e, no ano de 1977, partiu para o exílio, que não teve longa duração. A revolução de caráter islâmico liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, em 1979, destituiu o xá e marcou uma transformação drástica nas diretrizes de política externa do país.
De origem persa, o Irã objetivava frear a hegemonia árabe no cenário do Oriente Médio. Contudo, a nação que antes respirava a cultura proveniente da Europa e da América também passou a reprimir aqueles que divergissem do governo.
Não tardou para que uma ideologia de aversão ao Ocidente ganhasse tração na sociedade e no íntimo de Khamenei.
O Irã começou a pregar a erradicação do Estado de Israel. Passou também a rotular os Estados Unidos, um aliado de outrora, de “grande satã”, como um símbolo do imperialismo ocidental. A ascensão dos clérigos xiitas funcionou como a porta de entrada para a chegada de Ali Khamenei ao poder. Ele se tornou o braço direito e homem de estrita confiança do líder supremo.
Em 1980, assumiu a condução das orações das sextas-feiras em Teerã, sob as ordens de Khomeini. Em 1981, um ataque a bomba deixou sua mão direita paralisada. Logo na sequência, aos 42 anos de idade, sagrou-se presidente do Irã com 95% dos votos favoráveis.
No decorrer da guerra contra o Iraque, ocorrida entre 1980 e 1988, permaneceu lado a lado com Khomeini.
Foi também nesse recorte de tempo que o Irã iniciou o repasse de verbas e armamentos para grupos extremistas, como o Hezbollah, no Líbano. Mais adiante, estendeu esse apoio aos terroristas do Hamas, na Faixa de Gaza. Tratava-se da conhecida guerra por procuração — a qual, ao longo das décadas sucessivas, resultou em diversos atentados contra cidadãos de Israel e de países ocidentais.
A partir do falecimento de Khomeini, em 1989, Ali Khamenei comandou o país de 90 milhões de habitantes, que possui uma história entrelaçada à da antiga Pérsia. Ao ascender como líder supremo, sua escolha foi encarada como uma surpresa, visto que nem todos o avaliavam como qualificado para suceder Ruhollah Khomeini, o criador da república islâmica.
A extensão de seu poder era comparável à dos grandes ditadores. Sendo o Irã uma teocracia, Khamenei acumulou para si as funções de comandante político e líder religioso. Era o responsável pelas deliberações estratégicas da nação, a exemplo da política internacional, da segurança interna e do direcionamento das forças armadas.
Tinha autonomia para revogar as decisões proferidas pelo presidente e detinha o poder de exonerar qualquer membro do governo a qualquer momento, sem depender da votação de parlamentares. Projetava-se como o guardião dos preceitos da revolução islâmica: justiça no âmbito social, soberania nacional e uma gestão fundamentada no islamismo.
Contudo, diante de seus compatriotas, Khamenei utilizou a força militar para esmagar as divergências. Foram os casos da Onda Verde em 2009, que protestou contra a recondução do conservador Ahmadinejad à presidência, ou em 2019, quando as áreas periféricas se revoltaram devido à escalada nos preços dos combustíveis.
No ano de 2022, uma nova eclosão de manifestações foi sufocada na esteira da morte da jovem Mahsa Amini, enquanto ela se encontrava sob a vigilância da polícia moral iraniana. Ela havia sido detida sob a alegação de não utilizar o véu islâmico da forma exigida e, de acordo com os familiares, foi vítima de espancamento pelos oficiais.
O ato de remover o hijab e de cortar as madeixas em praça pública converteu-se em um emblema dessas mobilizações. O governo rebateu com a cartilha tradicional das ditaduras: repressão violenta, detenções arbitrárias, assassinatos, intimidação de jornalistas e censura do acesso à internet.
Nos anos mais recentes, Khamenei testemunhou o apoio ao seu regime despencar, motivado pelo descontentamento geral com uma economia fragilizada. A inflação saiu do controle, as taxas de desemprego se mantiveram em alta e o volume de exportação de petróleo sofreu forte redução. Grande parcela desse quadro é atribuída às sanções econômicas impostas pelos países ocidentais, em retaliação ao programa nuclear encabeçado pelo Irã.
A revolta da população se intensificou após os ataques aéreos executados por Israel e pelos EUA contra o território iraniano em junho de 2025, os quais pioraram o cenário da crise econômica interna. No começo do ano vigente, a administração enfrentou uma volumosa onda de protestos, que acabou reprimida de forma truculenta por Teerã, deixando um saldo de milhares de mortos.
Antes da ofensiva do último sábado, o líder iraniano já havia sobrevivido a uma tentativa de assassinato em 1981, e também havia se recuperado de um diagnóstico de câncer em 2014. Desde que Hassan Nasrallah, o então chefe do Hezbollah, foi morto, o Irã ampliou significativamente os esquemas de segurança destinados ao aiatolá.
Em uma nação onde os veículos de imprensa operam sob o escrutínio do regime, circulam poucas informações a respeito do cotidiano do líder supremo. Especulava-se que ele havia passado os últimos meses vivendo dentro de um abrigo subterrâneo fortificado na cidade de Teerã.