Cerimônia ocorre quatro meses após a morte do líder supremo iraniano em bombardeio, em meio a recentes negociações para encerrar o conflito
Teerã — O funeral de Estado do aiatolá Ali Khamenei teve início neste sábado (4) na capital iraniana, mobilizando milhares de fiéis em uma planejada demonstração de força do regime teocrático. A cerimônia ocorre quatro meses após a morte do antigo líder supremo, ocorrida em 28 de fevereiro durante um bombardeio conjunto perpetrado pelas forças dos Estados Unidos e de Israel no primeiro dia do conflito recente.
O caixão de Khamenei foi exposto na Grande Mosalla, um extenso complexo religioso de Teerã, coberto por seu tradicional turbante preto. A multidão, vestida majoritariamente de trajes pretos, começou a se concentrar nas primeiras horas da manhã, carregando bandeiras xiitas vermelhas com a inscrição "Mártir". Entre os participantes, slogans de teor hostil contra os governos ocidentais e de Israel foram entoados de forma coordenada pelas alas oficiais do regime.
Cartazes com mensagens radicais e pedidos de retaliação direcionados ao ex-presidente americano Donald Trump foram exibidos no mesmo dia em que os Estados Unidos celebram o 250º aniversário de sua declaração de independência. O forte teor nacionalista e religioso marcou os discursos dos civis arregimentados para o ato. "Todos aqui vieram para vingar o sangue de seu líder supremo", declarou Arash Rahimi, de 40 anos, em meio à multidão monitorada por forças de segurança.
O centro da capital do Irã foi transformado em uma verdadeira praça forte, monitorada por policiais armados com fuzis de assalto e postos de controle com detectores de metais nos acessos ao templo religioso. Estimativas de autoridades iranianas projetam a circulação de até 20 milhões de pessoas ao longo das cerimônias públicas em Teerã, o que tornaria o evento o maior ato fúnebre da história recente do país. A mobilização em massa também serve de anteparo para o governo após os protestos populares ocorridos há seis meses motivados pelo alto custo de vida e pela crise econômica.
O evento, planejado para durar seis dias, funciona estrategicamente como um instrumento de demonstração de estabilidade institucional no exato momento em que Teerã e Washington conduzem delicadas negociações diplomáticas. No mês passado, ambas as nações assinaram um memorando de entendimento preliminar destinado a encerrar formalmente o conflito armado que desestabilizou o Oriente Médio.
A transição de comando no topo do regime iraniano, contudo, permanece envolta em mistério para observadores externos. Mojtaba Khamenei, filho do falecido aiatolá que assumiu o posto de guia supremo no início de março, não teve sua presença física confirmada nas homenagens oficiais de sábado. Supostamente ferido nos mesmos ataques que vitimaram o pai, o novo dirigente tem se manifestado exclusivamente por meio de despachos escritos e evita aparições públicas.
Na tribuna de honra montada na Mosalla, autoridades da cúpula militar prestaram as últimas reverências, incluindo o novo chefe da Guarda Revolucionária, Ahmad Vahidi, nomeado para o cargo após a morte de seu antecessor no mesmo bombardeio de fevereiro. Ao lado do caixão de Khamenei, o regime também expôs as urnas fúnebres de seus familiares mortos na mesma incursão aérea: uma de suas filhas, um genro, uma nora e uma neta de apenas 14 meses.
As exéquias de Estado devem seguir um cronograma estendido até a próxima semana. O caixão permanecerá exposto à visitação pública na capital até segunda-feira, de onde partirá para procissões em diversas cidades iranianas e passará por santuários xiitas localizados em território iraquiano. O sepultamento definitivo está agendado para o dia 9 de julho em Mashhad, cidade natal de Khamenei situada no nordeste do país.
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