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Economia

União Europeia só deve retomar compra de carne bovina do Brasil em dois anos, prevê setor

Com bloqueio confirmado para 3 de setembro por regras de antimicrobianos, pecuaristas e avicultores buscam saídas para o impasse com o bloco europeu.

São Paulo — Faltando um mês para a União Europeia interromper as compras de produtos de origem animal do Brasil, o setor produtivo nacional projeta que a retomada das exportações de carne bovina para o bloco não ocorrerá antes de dois anos. A restrição, que entra em vigor em 3 de setembro de 2026, afeta os embarques de carne bovina, frango e mel, sem que haja perspectiva de uma solução no curto prazo.

A estimativa de dois anos foi apresentada por André Bartocci, presidente da Câmara Setorial da Carne Bovina, órgão consultivo do Ministério da Agricultura. O prazo está diretamente atrelado ao ciclo de criação dos animais. Segundo Bartocci, caso os pecuaristas iniciem hoje o cumprimento dos novos protocolos exigidos pelos europeus em relação ao controle de antimicrobianos, o rebanho levará cerca de 24 meses para atingir o ponto de abate dentro das exigências fixadas pelo mercado comunitário.

Procurado, o escritório de Saúde e Bem-Estar Animal da Comissão Europeia confirmou que o retorno das autorizações de venda dependerá rigorosamente dos ciclos de produção animal no país. O Ministério da Agricultura não se manifestou sobre as negociações.

A decisão de suspender o Brasil da lista de países credenciados para exportar produtos de origem animal ocorreu em maio. A medida fundamenta-se na avaliação de Bruxelas de que os sistemas de controle brasileiros sobre o uso de antibióticos e promotores de crescimento são insuficientes. Embora nenhuma irregularidade ou contaminação tenha sido identificada na carne brasileira, a legislação comunitária impõe rígidas restrições a substâncias utilizadas na prevenção de infecções ou no ganho de peso do rebanho.

A mudança nos critérios exige readequação estrutural na pecuária nacional. Bartocci, que produz em Mato Grosso do Sul, explica que os pecuaristas vinculados à Cota Hilton — modalidade de exportação de cortes nobres com tarifas reduzidas — já cumprem a proibição absoluta de antimicrobianos durante toda a vida do boi. O impacto atinge a maior parte do rebanho destinado à Europa, enquadrado na chamada "lista Trace", sistema que exigia a comprovação de ausência de resíduos apenas nos últimos 100 dias de vida do animal. Com a nova postura europeia, a auditoria abrangerá todo o ciclo biológico do rebanho.

No setor de proteína avícola, em que o ciclo de vida do animal é consideravelmente mais curto — cerca de 45 dias entre o nascimento e o abate —, a perspectiva de normalização é mais rápida. Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), informou que uma missão técnica da União Europeia visitará o Brasil no final de agosto para inspecionar novos protocolos desenvolvidos pelo governo. O plano prevê a ampliação das fiscalizações em fábricas de ração, granjas e frigoríficos, inseridas no Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes (PNCRC).

"Vamos continuar fazendo o que sempre fizemos, não usamos promotores de crescimento para a União Europeia nem antibióticos de uso humano. Empresas do Brasil não estão fazendo nada diferente do que sempre fizeram. Sempre segregamos"

As conclusões da missão técnica europeia sobre a avicultura nacional serão submetidas ao Comitê Permanente de Plantas, Animais, Alimentos e Rações (SCoPAFF) da Comissão Europeia, cuja reunião agendada ocorre apenas em novembro. Caso a paralisação se estenda, a ABPA projeta o redirecionamento da carne de frango para o mercado interno e para cerca de 150 países parceiros, minimizando os prejuízos ao setor.

O embargo também interrompe a trajetória de crescimento do setor de apicultura. Renato Azevedo, presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), apontou que as vendas ao bloco europeu haviam dobrado no primeiro semestre de 2026, somando US$ 6,3 milhões, impulsionadas pelo redirecionamento de cargas afetadas por sobretaxas alfandegárias aplicadas pelos Estados Unidos sob a gestão de Donald Trump. O mel brasileiro exportado é predominantemente orgânico e certificado, mas o setor enfrenta o desafio de garantir a ausência de contaminação cruzada provocada por colmeias situadas em áreas próximas a criações pecuárias.

Representantes do agronegócio brasileiro interpretam o bloqueio sanitário como uma barreira protecionista velada. A medida foi anunciada dias após a implementação formal do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, sob forte pressão de produtores agrícolas europeus temerosos quanto à concorrência dos produtos sul-americanos. Enquanto o Brasil enfrenta a suspensão, os demais integrantes do Mercosul — Argentina, Paraguai e Uruguai — mantêm a autorização para embarques ao continente europeu.


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