Recursos subvencionados pelo Tesouro recuam 14,7% e governo incorpora verbas de programas externos para simular financiamento recorde ao agronegócio
Brasília — O governo federal anunciou nesta terça-feira (30) o Plano Safra empresarial para o ciclo 2026/2027 com um montante global de R$ 525,1 bilhões. No entanto, por trás do anúncio classificado pela propaganda oficial como recorde, o programa revela um recuo severo nos recursos destinados ao custeio, à comercialização e à subvenção de juros, expondo o produtor rural a linhas de crédito com custo financeiro mais elevado.
A redução do apoio estatal direto fica evidente na queda de 14,7% nos recursos equalizados pelo Tesouro Nacional, que encolheram de R$ 113,8 bilhões na safra passada para R$ 97 bilhões no atual ciclo. Paralelamente, a verba voltada a custeio e comercialização — considerada o capital de giro indispensável para o plantio e a aquisição de insumos básicos — sofreu uma retração de 7,18%, caindo para R$ 384,9 bilhões.
"Não tem recorde algum; só na propaganda oficial."
A avaliação crítica foi manifestada pela senadora Tereza Cristina (PP-MS), que apontou uma redução real nos valores práticos de custeio. Nas palavras da parlamentar sul-mato-grossense, a ligeira oscilação para baixo nas taxas de juros divulgadas não alivia o cenário de aperto estrutural. “Os juros caíram um pouquinho, mas continuam altíssimos para o bolso dos agricultores – o que dificulta a tomada do crédito nos bancos”, constatou.
O redesenho orçamentário promovido pelo Executivo também afetou severamente as linhas de investimento técnico. Embora o Palácio do Planalto tenha divulgado um crescimento nominal de 38,1% nessa área — saltando para R$ 140,2 bilhões —, o detalhamento dos índices desmente a expansão linear: das 12 linhas de investimento com juros fixados, 11 registraram encolhimento de verbas. O Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas e Implementos Associados e Colheitadeiras (Moderfrota) liderou as perdas ao despencar de R$ 9,5 bilhões para R$ 3,7 bilhões, enquanto o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) encolheu 24,4%.
Veja comparativos:

Para sustentar a narrativa de um plano expansionista, a equipe econômica expandiu a base de cálculo ao incorporar fontes financeiras externas ao ecossistema tradicional do agronegócio. Foram contabilizados R$ 10 bilhões originários do Move Agricultura, linha do Move Brasil, e R$ 28,5 bilhões atrelados ao Ecoinvest Brasil, mecanismo estruturado para a recuperação de pastagens. Sem esse arranjo contábil, o volume real do Plano Safra empresarial cai para R$ 486,6 bilhões — o que representa uma contração factual de 5,7% em comparação com o período anterior.
Outro pilar de sustentação do volume anunciado são as Cédulas de Produto Rural (CPRs), que representam cerca de R$ 194 bilhões do total. Esses papéis dependem do estoque de Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), que atingiu R$ 571,5 bilhões em maio. Esse mecanismo privado de financiamento esteve sob ameaça direta do próprio Executivo no ano passado, por meio de uma Medida Provisória que visava extinguir a isenção fiscal e instituir uma taxa de 7,5% sobre esses títulos. A ofensiva acabou barrada pela atuação da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), evitando um esvaziamento ainda maior das linhas de crédito.
O lançamento do plano também silenciou sobre o desmonte do Seguro Rural. O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) sofreu cortes e bloqueios sucessivos recentes que desidrataram seu orçamento inicial de R$ 1,01 bilhão para aproximadamente R$ 473 milhões, deixando o setor desprotegido diante de riscos climáticos iminentes, como o fenômeno El Niño. “Nenhuma palavra foi dita sobre o importantíssimo seguro rural, que teve os recursos reduzidos à metade em 2025 e em 2026”, protestou Tereza Cristina, apontando ainda a ausência de soluções governamentais para o endividamento do produtor. Diante do quadro, a FPA concentra esforços legislativos na tramitação de projetos de lei voltados à renegociação de dívidas e à reformulação do seguro agrícola.
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