Washington alega concorrência desleal por parte do Banco Central, enquanto especialistas defendem redução de custos operacionais e soberania do sistema nacional
São Paulo — A consolidação do Pix como principal ferramenta de transações financeiras no mercado nacional transpôs as fronteiras comerciais e se tornou o mais novo ponto de atrito diplomático entre o Brasil e os Estados Unidos. O governo do presidente Donald Trump incluiu o sistema de pagamentos instantâneos operado pelo Banco Central brasileiro como um dos pretextos formais para a imposição de uma tarifa linear de 25% sobre os produtos importados do país, anunciada na última quarta-feira (15).
De acordo com os relatórios do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), o ecossistema de pagamentos brasileiro prejudica diretamente as corporações americanas do setor financeiro, como Visa e Mastercard. A queixa de Washington concentra-se na arquitetura institucional do modelo: por ser desenvolvido, gerido e regulado simultaneamente por uma autoridade monetária estatal, o sistema usufruiria de uma assimetria competitiva intransponível para o capital privado estrangeiro, visto que opera sem a finalidade de lucro ou cobrança de taxas tradicionais.
No mercado interno, a percepção de economistas e lideranças do setor produtivo diverge frontalmente da visão protecionista americana. A tecnologia desenvolvida pelo Banco Central mitigou custos operacionais, reduziu o peso dos intermediários financeiros e otimizou o fluxo de caixa corporativo ao liquidar as vendas em tempo real. Uma pesquisa conduzida pelo Sebrae em parceria com o Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) revela que o mecanismo já é o principal meio de recebimento para 59% dos proprietários de pequenos negócios no país.
O levantamento estatístico evidencia a capilaridade da ferramenta no ecossistema de microempreendedores individuais (MEIs), onde o índice de utilização atinge 97%. Para quase um terço desse segmento — precisamente 28% —, o arranjo de pagamento instantâneo já responde por mais de 75% de todo o faturamento mensal. Conforme avalia Rodrigo Soares, presidente do Sebrae, trata-se de uma dinâmica estrutural irreversível que se converteu na preferência das microempresas devido à celeridade da liquidação e ao suporte direto à manutenção do capital de giro.
Em pronunciamentos oficiais sobre as sanções, representantes do governo americano argumentaram que a intenção não é forçar o desmantelamento da infraestrutura brasileira. O foco das sanções reside em coibir o que consideram um tratamento preferencial decorrente da propriedade estatal do arranjo. O economista e professor da ESPM, Jorge Ferreira dos Santos Filho, aponta que o descontentamento de Washington reflete a obsolescência forçada dos modelos de negócios baseados em tarifas de intermediação de cartões de crédito dominados por companhias dos Estados Unidos.
Paralelamente às discussões sobre cartões de crédito e débito, analistas de mercado sugerem que o descontentamento geopolítico também abrange o desenvolvimento do Pix Internacional. O plano de integração transfronteiriça com blocos econômicos e nações emergentes, especialmente no âmbito do Brics — grupo que reúne economias como China, Rússia, Índia e Emirados Árabes Unidos —, sinaliza o potencial de liquidação de transações externas sem a intermediação compulsória do dólar, o que ameaçaria a hegemonia da moeda norte-americana nas redes financeiras globais.
Embora os Estados Unidos possuam plataformas análogas de liquidação imediata, como o FedNow e o Zelle, o arranjo institucional descentralizado e a adesão voluntária das instituições privadas na América do Norte impediram o alcance da escala e da universalização registradas no território brasileiro. Desde o seu lançamento em novembro de 2020, o Pix alcançou a marca de 170 milhões de usuários pessoas físicas e movimentou, no ano de 2025, a soma recorde de R$ 35,4 trilhões — montante que representa quase três vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.
A ofensiva comercial americana não se restringe à pauta bancária. O pacote de restrições tarifárias de 25% abarca uma série de contestações institucionais, incluindo decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) relativas ao cumprimento de ordens judiciais por plataformas tecnológicas americanas, além de fricções em normas de propriedade intelectual, tarifas de biocombustíveis e pautas ambientais. Em resposta, o Palácio do Planalto sinalizou que acionará os mecanismos previstos na recém-aprovada Lei da Reciprocidade Econômica para responder às barreiras comerciais impostas.
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