Petrobras reajusta combustível sob impacto do conflito no Oriente Médio; Ministério da Fazenda monitora efeitos no setor aéreo
O aumento superior a 50% no preço do querosene de aviação, anunciado pela Petrobras na quarta-feira (1º), prepara o terreno para um choque nos custos de viagens no Brasil. Com o barril de petróleo pressionado pela escalada do conflito no Oriente Médio, passageiros podem enfrentar bilhetes até 20% mais caros nos próximos meses.
A estatal justificou o reajuste como reflexo direto da disparada da commodity, após a intensificação da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. O barril de petróleo, que operava próximo à faixa dos 70 dólares antes das tensões recentes, chegou a ultrapassar a barreira dos 115 dólares no mercado internacional.
Como o combustível representa a maior fatia isolada das despesas do setor — passando agora a consumir 45% dos custos operacionais das companhias, segundo a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) —, o encarecimento imediato da operação é inevitável. O aumento anterior, aplicado no mês de março, já havia pressionado as margens do segmento.
O avanço nos gastos por quilômetro voado deve acompanhar diretamente o custo do abastecimento. “Como quase metade das despesas das companhias aéreas é com o QAV, o custo operacional deve subir nessa proporção”, avalia Andre Castelini, sócio da consultoria Bain&Company. O especialista sinaliza que rotas com rentabilidade marginal correm o risco de serem suspensas, reduzindo a oferta se os clientes não conseguirem absorver a nova tabela de preços.
A retração do consumo surge como consequência natural na equação das empresas. Para Maurício França, da L.E.K. Consulting, o impacto mais provável nos bilhetes orbita a casa dos 15%, o que tenderia a gerar um recuo de idêntica magnitude na busca por viagens. As rotas de lazer sofrem impacto superior, enquanto o passageiro corporativo apresenta maior tolerância à alta.
A Abear classificou o horizonte como adverso para o mercado interno. A entidade argumentou que o choque de custos asfixia a abertura de rotas inéditas e compromete a malha aérea nacional. “A medida tem consequências severas sobre a abertura de novas rotas e a oferta de serviços, restringindo a conectividade do país e a democratização do transporte aéreo”, informou a associação em nota oficial.
Em uma tentativa de conter o estrangulamento financeiro das distribuidoras e aéreas, a Petrobras instituiu um mecanismo temporário de diluição do impacto. O repasse será de 18% em abril, com a diferença contratual dividida em seis parcelas a partir de julho. “Essa medida visa preservar a demanda pelo produto e mitigar os efeitos do reajuste no setor de aviação brasileiro”, declarou a companhia.
Na via governamental, o Ministério de Portos e Aeroportos propôs a redução provisória de impostos sobre o querosene e um possível corte de IOF nas operações das aéreas, além de estudar linhas de crédito via Fundo Nacional da Aviação Civil (Fnac). O Ministério da Fazenda, contudo, adota tom de cautela e afirmou que qualquer intervenção será desenhada “à luz das evidências, e sempre em conformidade com os marcos fiscais vigentes”.
BRTimes — Jornalismo com independência e responsabilidade.