A estreia da série Tremembé reacendeu um debate urgente: até onde vai a indústria cultural na tentativa de transformar criminosas em protagonistas “complexas e incompreendidas”? A produção, que tenta suavizar a realidade brutal de crimes cometidos por mulheres presas, tem sido vista em Mato Grosso do Sul como um ataque direto às famílias das vítimas e um incentivo perigoso à glamurização da violência.
Enquanto milhares de brasileiros carregam traumas irreparáveis causados por criminosos, a série aposta em cenários cuidadosamente montados, discursos ensaiados e personagens retratadas quase como heroínas. O resultado é um espetáculo que inverte valores, relativiza atrocidades e pinta a criminalidade com tintas de empatia seletiva.
O problema não é mostrar a realidade prisional — o jornalismo faz isso todos os dias com fatos, dados e responsabilidade. O problema é romantizar agressoras, transformar assassinas e cúmplices em personagens consumíveis, em produtos de entretenimento embalados sob a narrativa da “coitadização”.
Isso é mais do que mau gosto: é um desserviço social.
Em um país onde famílias seguem lutando por justiça, onde mães choram filhos que jamais voltarão para casa, a insistência em criar histórias que suavizam o crime é uma afronta direta a quem paga o preço da violência.
A pergunta que fica é simples e incômoda:
quem ganha com a glamurização do crime?
Certamente não é a sociedade, nem as vítimas, muito menos quem precisa de justiça — não de romance.
Enquanto o entretenimento insiste em pintar criminosas como personagens “profundas”, o Brasil real continua enterrando vítimas. E esse abismo entre ficção e realidade não pode ser ignorado.
O público merece reflexão, e não propaganda travestida de arte.