Softwares de IA generativa permitem a criação de notas fiscais hiper-realistas, burlando sistemas de auditoria de despesas; empresas relatam milhões em prejuízos
Uma nova modalidade de fraude está desafiando os sistemas de controle financeiro das empresas. Colaboradores estão utilizando geradores de imagem por inteligência artificial (IA) para produzir comprovantes fiscais falsos e solicitar reembolsos indevidos em relatórios de despesas. O alerta foi divulgado por publicações como o “New York Times” e o “Financial Times”.
Empresas especializadas em auditoria de gastos já identificam um aumento significativo dessa prática. A plataforma AppZen, por exemplo, revelou que, em setembro, 14% das notas enviadas ao seu sistema haviam sido geradas artificialmente. Outra companhia do setor, a Ramp, identificou o equivalente a US$ 1 milhão em recibos fraudulentos nos últimos 90 dias.
A sofisticação das imagens falsificadas atingiu um nível alarmante. “As notas ficaram tão boas que nós dizemos aos nossos clientes para não confiarem no que verem”, declarou Chris Juneau, vice-presidente de marketing da Sap Concur, uma plataforma de controle de gastos, em entrevista ao “Financial Times”.
Acessibilidade e Realismo
O que torna a prática preocupante é a facilidade de execução. Não é mais necessário dominar programas avançados de edição de imagem, como o Adobe Photoshop. Com o comando de texto (prompt) correto, qualquer usuário pode instruir uma IA a gerar um documento fraudado. Também existe a alternativa de usar a tecnologia para simplesmente alterar valores em uma nota fiscal autêntica.
As ferramentas de IA conseguem adicionar detalhes que conferem grande veracidade aos documentos falsos, como amassados, sombras e até manchas de comida ou bebida, simulando um recibo físico manuseado.
Embora alguns sistemas, como o ChatGPT, possuam travas que impedem a criação direta de “uma nota fiscal realista” para “evitar atividade ilícita” — conforme testes feitos pela reportagem —, usuários relatam em redes sociais formas de contornar essas barreiras. O método consiste em “ocultar o pedido”, solicitando a imagem sob o pretexto de ser uma ilustração para uma obra de ficção, como um romance.
Para aumentar as chances de o documento ser aceito pelos sistemas de auditoria, os fraudadores utilizam um truque adicional: em vez de usar o arquivo original gerado pela IA, eles realizam uma captura de tela do recibo falso. Esse processo elimina os metadados — informações digitais que indicam como o arquivo foi criado —, dificultando a detecção da fraude pelos softwares de segurança.
Combate à fraude e o cenário brasileiro
As empresas de tecnologia, por sua vez, também estão recorrendo à inteligência artificial para combater as fraudes. A AppZen informou em seu blog que utiliza uma combinação de análise de dados da própria nota e o cruzamento com padrões históricos para verificar a autenticidade dos documentos. Informações como o local da viagem, datas e nomes de atendentes também auxiliam nesse processo de verificação.
No Brasil, a disseminação desse tipo de golpe encontra uma barreira tecnológica significativa: a presença do QR Code na maioria das notas fiscais. A leitura desse código permite a verificação instantânea do valor exato do documento.
Contudo, a vulnerabilidade persiste em algumas exceções, como em recibos emitidos por Microempreendedores Individuais (MEIs), autônomos e pequenos prestadores de serviço, que não seguem o mesmo padrão. Além disso, notas fiscais emitidas fora do país possuem padronizações distintas, e nem sempre os sistemas de auditoria estão preparados para validá-las corretamente.
Especialistas alertam que o uso de notas falsas para obter reembolso ou qualquer benefício econômico configura uma tentativa de fraude. A ação pode resultar em demissão por justa causa e, em cenários mais graves, ser tipificada como crime contra a ordem tributária, conforme explica Júlio Cesar Soares, especialista em direito tributário da Advocacia Dias de Souza.

