Enquanto Imperatriz e Mangueira apostaram em enredos culturais, Acadêmicos de Niterói transformou a avenida em palanque político com culto à personalidade e provocações a opositores.
A primeira noite de desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro, realizada entre domingo (15) e a madrugada desta segunda-feira (16), confirmou a tendência de uso do carnaval como instrumento de propaganda ideológica. Embora Imperatriz Leopoldinense e Mangueira tenham apresentado desfiles tecnicamente superiores, a noite ficou marcada pela polêmica apresentação da Acadêmicos de Niterói, que dedicou seu enredo a exaltar a figura de Luiz Inácio Lula da Silva e atacar seus adversários políticos.
Portela e Acadêmicos de Niterói completaram a lista das escolas que cruzaram a avenida.
O Carnaval do “Pão e Circo”: Acadêmicos de Niterói
Fundada recentemente, em 2018, a Acadêmicos de Niterói estreou na elite do samba promovendo o que críticos classificaram como uma peça de propaganda eleitoral extemporânea. O enredo narrou a trajetória do petista de forma messiânica, desde o agreste pernambucano até a Presidência, ignorando escândalos de corrupção passados.
O desfile foi alvo de dez ações na Justiça e no Tribunal de Contas da União (TCU). Parlamentares de oposição denunciaram o uso da festa popular para promoção pessoal de Lula. Contudo, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) negou a liminar para barrar o desfile, emitindo apenas um alerta inócuo sobre crimes eleitorais.
Na avenida, a escola não poupou provocações e desrespeito a quase metade do eleitorado brasileiro. Além de uma encenação da posse de Lula, um dos carros alegóricos trazia uma crítica direta à gestão de Jair Bolsonaro durante a pandemia e, em um ato de revanchismo político, exibiu uma representação do ex-presidente preso na parte traseira da alegoria.
Lula, presente em um camarote, desceu para a pista para ser ovacionado pelos integrantes da escola, reforçando o clima de comício partidário.
Imperatriz Leopoldinense
Focada na arte e longe da militância partidária explícita, a Imperatriz Leopoldinense homenageou o cantor Ney Matogrosso com o enredo “Camaleônico”. A escola investiu em estética, com um lobisomem gigante de 20 metros e truques de ilusionismo na comissão de frente. A apresentação foi correta e celebrou a carreira do artista sem apelar para a polarização política.
Portela
A Portela apostou no sincretismo religioso e na tecnologia para contar a história do “Príncipe do Bará”, ligada à cultura afro-gaúcha. O destaque ficou por conta da inovação técnica: um integrante voou sobre a avenida a bordo de um drone gigante, em um momento de engenharia criativa que destoou da mesmice de outros desfiles.
Mangueira e o Incidente Final
A Estação Primeira de Mangueira encerrou a noite com o enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju”, focado em pautas afro-indígenas e ambientais da Amazônia, temas recorrentes na agenda progressista atual. Apesar da beleza plástica, a escola enfrentou problemas graves de organização. Ao final do desfile, um carro alegórico colidiu com a base do monumento da Praça da Apoteose, travando a dispersão e obrigando os componentes a desmontarem parte da alegoria às pressas — um reflexo da falta de planejamento que muitas vezes acompanha grandes pretensões.
Próximos Desfiles
A festa continua nesta segunda e terça-feira com Mocidade, Beija-Flor, Viradouro e Tijuca, seguidas por Tuiuti, Vila Isabel, Grande Rio e Salgueiro no terceiro dia. Resta saber se as próximas agremiações focarão no samba e na cultura popular ou se insistirão em transformar a Sapucaí em anexo de diretórios partidários.

