O chamado “governo do amor”, que se apresenta como defensor das vítimas e das minorias, voltou a se envolver em uma grave contradição política e moral. Nesta quarta-feira (4), durante um ato oficial contra o feminicídio realizado no Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dividiu espaço com o ex-deputado federal Julian Lemos, político acusado de agressões contra a própria irmã e contra a ex-esposa, com registros na Lei Maria da Penha.
A presença de Lemos no evento — justamente voltado ao combate à violência contra a mulher — gerou indignação e questionamentos sobre a real coerência do discurso adotado pelo governo federal, que diz apoiar as vítimas da sociedade, mas agora soma ao seu grupo mais um personagem envolvido em acusações de violência doméstica.
Acusações graves e histórico policial
Julian Lemos já foi alvo de três denúncias formais relacionadas à violência doméstica. As acusações foram feitas por familiares e por sua ex-companheira, Ravena Coura, em episódios distintos ao longo dos anos.
Em 2013, Ravena relatou à polícia ter sido agredida fisicamente e ameaçada com uma arma de fogo, fato que levou o então parlamentar a ser preso em flagrante. Três anos depois, em 2016, uma nova denúncia foi registrada. Segundo o relato, Lemos apresentava comportamento agressivo recorrente e chegou a ameaçar a ex-companheira com frases que indicavam risco iminente à sua integridade física.
Apesar desse histórico, o ex-deputado foi recebido em um evento institucional que, ironicamente, tinha como objetivo reforçar o compromisso do governo no combate à violência contra mulheres.
Do bolsonarismo ao colo do Planalto
Ex-aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro, Julian Lemos hoje circula com desenvoltura entre figuras ligadas ao PT e à base governista. Durante o evento, ele foi visto ao lado da senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), parlamentar que passou a ser duramente criticada por eleitores conservadores após romper com a direita no Mato Grosso do Sul e adotar posições alinhadas ao atual governo.
A imagem simboliza, para críticos, o retrato fiel do atual momento político: antigos opositores do PT agora acolhidos pelo governo, independentemente de seus históricos pessoais ou contradições públicas.
Discurso de proteção às vítimas sob questionamento
Enquanto o Planalto promove discursos em defesa das mulheres e das vítimas da violência, a presença de figuras com acusações graves levanta dúvidas sobre a credibilidade dessas ações. Para analistas, o episódio reforça a percepção de que pautas sensíveis vêm sendo usadas como instrumento político, esvaziadas de coerência prática.
Até o momento, o governo federal não se manifestou sobre os critérios adotados para a participação no evento, tampouco respondeu às críticas que se multiplicaram nas redes sociais.
O caso expõe mais uma vez a distância entre o discurso e a prática do chamado “governo do amor”, que promete acolhimento às vítimas, mas abre espaço para quem carrega acusações de agressão e violência em sua trajetória.

