O Caribe amanheceu nesta terça-feira (28) vivenciando um dos capítulos mais sombrios de sua história climática recente. O Furacão Melissa, um sistema monstruoso que se intensificou rapidamente nas águas quentes do Caribe, fez landfall (tocou o solo) na Jamaica nas primeiras horas da manhã. O impacto foi tão violento e generalizado que autoridades locais e o Centro Nacional de Furacões (NHC) em Miami já classificam o evento como a “tempestade do século” para a ilha, com um potencial destrutivo superior a qualquer outro furacão na memória recente do país.
A Jamaica, uma nação de quase 3 milhões de habitantes, está neste momento praticamente incomunicável. O “olho” do furacão, que atingiu o status de Categoria 5 – a mais alta na escala Saffir-Simpson – cruzou a costa sul da ilha, atingindo em cheio a capital Kingston, com ventos sustentados que ultrapassaram os 260km/h e rajadas ainda mais violentas.
Relatos obtidos antes do colapso total das redes de energia e comunicação pintam um cenário apocalíptico. A temida storm surge (maré de tempestade), potencializada pela força dos ventos, fez o oceano invadir quilômetros de áreas costeiras, submergindo bairros inteiros em Kingston e em cidades turísticas vitais como Montego Bay e Ocho Rios. O Aeroporto Internacional Norman Manley, na capital, foi completamente inundado e está inoperante.
O governo da Jamaica, liderado pelo primeiro-ministro Andrew Holness, que havia declarado estado de desastre nacional 24 horas antes do impacto, está com a capacidade de resposta severamente comprometida. A ordem de evacuação obrigatória para centenas de milhares de moradores em zonas de risco não pôde ser totalmente implementada devido à rápida intensificação da tempestade.
Especialistas em meteorologia e gestão de desastres comparam a fúria de Melissa à devastação causada pelo Furacão Gilbert em 1988, que até então era o “fantasma” que assombrava a memória coletiva da ilha. No entanto, os boletins preliminares indicam que Melissa pode ter superado Gilbert tanto em força bruta quanto em volume de precipitação, aumentando exponencialmente o risco de deslizamentos de terra catastróficos nas famosas Montanhas Azuis (Blue Mountains), onde residem muitas comunidades vulneráveis.
As imagens que circularam nas primeiras horas, antes do blackout total, mostravam rios transbordando, estruturas de concreto desabando e uma destruição de infraestrutura que levará, segundo as primeiras estimativas, décadas para ser reconstruída.
A comunidade internacional observa com extrema apreensão. O governo dos Estados Unidos e nações da União Europeia já sinalizaram o envio imediato de ajuda humanitária e equipes de busca e resgate, que devem partir assim que o tempo permitir a aproximação segura da ilha.
Neste momento, a prioridade absoluta é a sobrevivência. Enquanto o Furacão Melissa agora se afasta lentamente da Jamaica, deixando um rastro de destruição absoluta, o mundo se prepara para descobrir a real dimensão humana e material da maior tragédia climática já registrada na história da nação insular.

