São Paulo atingiu recorde histórico de escrituras em 2025, enquanto municípios que absorveram êxodo urbano na pandemia registraram queda aguda nas negociações imobiliárias.
A consolidação do retorno ao trabalho presencial provocou uma nova reconfiguração estrutural no mapa imobiliário paulista. Com a exigência corporativa por mais dias nos escritórios, a cidade de São Paulo registrou 90.402 escrituras de compra e venda de imóveis em 2025 — o maior volume da história e um avanço de 49,6% em relação a 2020. Os números atestam a reversão do chamado êxodo urbano, fenômeno que havia impulsionado a busca por espaços maiores no interior durante o auge da pandemia de Covid-19.
Um levantamento do Colégio Notarial do Brasil em São Paulo (CNB/SP), entidade que representa os tabeliães de notas, revela que os municípios antes beneficiados pela adoção maciça do home office perderam fôlego. O contraste evidencia a retomada da localização e da proximidade com os centros de negócios como fatores decisivos na aquisição de moradia familiar.
A retração atingiu diretamente as cidades associadas ao mercado de condomínios fechados horizontais. Entre 2021 e 2025, o número de transações despencou 57% em Itupeva e 41% em Cotia. O encolhimento também foi expressivo em Indaiatuba (36%), São João da Boa Vista (32%), Atibaia (31%), Peruíbe (30%), Itu (28%) e Itatiba (28%). O balanço aponta que o interior turístico devolveu os ganhos auferidos na pandemia, encerrando 2025 com o equivalente a 99,3% do volume pré-crise. As regiões litorâneas estabilizaram cerca de 20% acima do patamar de 2020, mas estagnaram a partir de 2023.
Apesar do claro retrocesso fora da capital, o vice-presidente do CNB/SP, Andrey Guimarães Duarte, adverte que o cenário não caracteriza uma debandada geral. "Queda no número de escrituras não é suficiente para entender que há uma saída massiva de moradores. Os dados mostram menor intensidade nas transações imobiliárias após um período de expansão excepcional", analisa. "Se fosse simplesmente uma volta ao padrão pré-pandemia, esperaríamos que a capital recuperasse o que perdeu e os destinos do home office retornassem aos níveis anteriores. Não foi exatamente isso que aconteceu."
A engrenagem por trás da mudança repousa na reestruturação do mercado de trabalho. Segundo a plataforma Gupy, as vagas em regime presencial e híbrido já superam com folga as oportunidades totalmente remotas. Essa transição reintroduziu o desgaste do trânsito, pedágios e gastos com transporte na rotina de quem havia migrado em busca de qualidade de vida.
Dados da consultoria Robert Half apontam que profissionais de construção civil e engenharia já atuam, em média, 4,8 dias por semana nos escritórios. No setor de serviços, a média é de 3,3 dias. A justificativa empresarial para o recuo na flexibilidade passa pela dinâmica interna: 68% dos gestores afirmam que a presença fortalece a cultura corporativa; 63% citam ganhos em comunicação; 59% mencionam integração; 50% relacionam o modelo ao aumento de produtividade; e 34% atendem a diretrizes de lideranças globais.
Entretanto, a exigência gera atritos. Uma pesquisa da WeWork com a Offerwise revela que 63% dos profissionais operam hoje em formato presencial — e para 79% deste grupo, a condição é compulsória, determinada pela empresa. O deslocamento é a maior queixa (65%), e 53% relatam aumento nas despesas diárias. A gerente de negócios da WeWork Brasil, Beatriz Kawakami, classifica a situação como um "custo silencioso" que corrói o bem-estar e o planejamento financeiro, sem contrapartida salarial direta.
A readequação corporativa também desmontou decisões de longo prazo. Profissionais que investiram na compra de imóveis ou assumiram obrigações familiares longe das metrópoles foram atingidos em cheio. O Nubank, por exemplo, encerrou seu formato predominantemente remoto e impôs encontros trimestrais, sustentando a decisão apesar das fortes críticas internas de suas equipes distribuídas pelo país.
O choque de interesses cristaliza um dilema de mercado. A Robert Half alerta que 54% dos executivos temem perder talentos devido à rigidez da jornada. Como reflexo, 52% dos trabalhadores afirmam que considerariam trocar de emprego se perdessem a flexibilidade. Segundo a WeWork, apenas 42% dos profissionais optariam voluntariamente pelo retorno aos escritórios.
Mesmo com a reversão de tendência, o interior não registrou uma paralisia uniforme. Municípios com infraestrutura corporativa robusta ou situados no cinturão estratégico da capital conseguiram atrair capital. Taboão da Serra liderou a expansão entre 2021 e 2025, com alta de 73% nas escrituras. Bauru cresceu 42%, o polo empresarial de Barueri saltou 26%, Paulínia registrou 19% e Limeira teve incremento de 14%, provando que os centros secundários de negócios conseguiram blindar parte de seu mercado imobiliário no cenário pós-pandemia.
BRTimes — Jornalismo com independência e responsabilidade.