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Geopolítica

Europa reavalia desarmamento e preparo psicológico civil frente a ameaças da Rússia

Com manuais de defesa sendo reescritos no Reino Unido e o fim da neutralidade nórdica, especialistas alertam para a falta de engajamento da sociedade ocidental.

O fim de uma era de desmilitarização no continente europeu exige agora uma transição não apenas nos orçamentos de defesa, mas na mentalidade da população. No Reino Unido, o governo retomou a atualização de seu "livro de guerra" — um manual estratégico inalterado há décadas — e passou a considerar cenários onde cidadãos precisariam estocar itens básicos, como água potável e alimentos enlatados, para lidar com graves perturbações civis.

A movimentação britânica reflete um diagnóstico direto do alto escalão militar. O chefe do Estado-Maior da Defesa, Richard Knighton, declarou nesta semana que a atual postura da Rússia representa o período "mais perigoso" de seus 35 anos de trajetória nas Forças Armadas. A ameaça contemporânea, contudo, difere do temor de uma invasão territorial clássica que pairava sobre Londres em 1940.

Para a historiadora Margaret MacMillan, o perigo iminente reside na infraestrutura. "Não é com os tanques que precisamos nos preocupar", afirma a acadêmica, citando o risco de corte de cabos oceânicos e ataques de hackers contra sistemas vitais. Segundo ela, a guerra assimétrica e cibernética avança a passos largos, enquanto a sociedade, marcada pelos horrores da Primeira Guerra Mundial, acostumou-se a enxergar a paz como o estado permanente das coisas.

O acadêmico Andrew Michta, professor da Universidade da Flórida, argumenta que o continente sucumbiu a uma "crise de descrença" após o colapso da União Soviética. Acreditando no desaparecimento da ameaça de Moscou, potências como a Alemanha desarmaram-se militarmente e criaram dependência energética por meio de gasodutos como o Nord Stream, confiando que a relação poderia ser gerida apenas por vias políticas e econômicas. "O Reino Unido também está amplamente desarmado e, o mais importante, também mentalmente", alerta Michta, criticando a falta de franqueza das elites políticas sobre a gravidade do cenário.

O ex-vice-comandante supremo dos aliados na Europa, general aposentado Richard Shirreff, aponta a invasão da Ucrânia em 2014 como o marco em que a Rússia passou a operar sob uma lógica de guerra com a Otan — um conflito indireto, focado em corroer a integridade das nações ocidentais. Shirreff defende a preparação contra ações desestabilizadoras contínuas, seja no arquipélago norueguês de Svalbard ou em alvos institucionais indiretos.

A prontidão, no entanto, varia drasticamente conforme a proximidade geográfica com a fronteira russa. Após dois séculos de neutralidade, a Suécia abandonou sua política histórica em 2022. Com um sistema de alistamento parcial de até 15 meses de treinamento compulsório, o país integra civis à defesa nacional, mapeando proativamente engenheiros e especialistas estruturais que possam atuar na manutenção do abastecimento elétrico durante crises.

Nas repúblicas bálticas, a resposta militar é reforçada. Tropas alemãs retornaram à Lituânia sob convite para fortalecer as defesas do flanco leste, enquanto um contingente de mil soldados britânicos lidera uma força multinacional na Estônia.

A grande referência de resiliência europeia, porém, concentra-se na Finlândia. Marcada pela perda de milhares de vidas contra a União Soviética na Guerra de Inverno (1939-1940), a nação nórdica mantém alistamento universal masculino e promove a integração total entre civis e militares. O modelo finlandês garante protocolos de gestão de crises em todos os hospitais e agências de água do país, além de treinar anualmente líderes políticos, CEOs de empresas e diretores de ONGs.

O impacto dessa política de Estado reflete-se na assimetria operacional do continente. Enquanto o Reino Unido, com 66 milhões de habitantes, dispõe de uma força militar de cerca de 70 mil profissionais, a Finlândia — com apenas 5,5 milhões de cidadãos — possui 23 mil militares ativos, mas apoia-se em um milhão de reservistas treinados, sendo capaz de mobilizar rapidamente um exército de 280 mil soldados.

Diante da disparidade, militares como Shirreff avaliam que orçamentos isolados não bastarão para assegurar a defesa do continente, sugerindo a adoção de modelos de engajamento cívico obrigatório, como o norueguês. O primeiro passo para viabilizar qualquer transição, ressalta o general, exige que as lideranças abandonem a retórica pacífica herdada do fim da Guerra Fria e apresentem abertamente o custo da segurança nacional à população.


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