Juros elevados por tempo prolongado encarecem o crédito e pesam no bolso das famílias, mesmo com o mercado de trabalho aquecido
O Brasil chegou ao maior número de pessoas ocupadas da série histórica no mesmo mês em que a inadimplência nas operações de crédito também atingiu o pior patamar já registrado. O contraste aparece em dois indicadores divulgados nesta terça-feira (29): a taxa de desemprego, calculada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e a taxa de calotes em empréstimos, medida pelo Banco Central.
Segundo o IBGE, a taxa de desocupação ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto, queda de 0,3 ponto percentual tanto ante o trimestre encerrado em maio quanto na comparação com o mesmo período de 2025 — nos dois casos, a taxa estava em 5,6%. O país tinha 5,8 milhões de pessoas desocupadas no período, enquanto a população ocupada somou 103,5 milhões, alta de 0,8% no trimestre (mais 774 mil pessoas) e de 1% em doze meses (mais 1,1 milhão).
Para o economista Leonardo Costa, da ASA Investimentos, o ritmo de geração de vagas já dá sinais de perda de fôlego. "A taxa de desemprego segue baixa e estável, mas o ritmo de criação de vagas perdeu força. Além disso, a sequência de quedas da massa salarial merece acompanhamento mais próximo, por ser um cenário menos favorável para o consumo das famílias", afirmou.
O levantamento do IBGE mostra ainda que o avanço recente da ocupação se concentrou em setores específicos, como construção e indústria, enquanto os demais permaneceram estáveis. A economista-chefe do PicPay, Ariane Benedito, vê nessa concentração um indício de enfraquecimento à frente. "O mercado de trabalho tende a responder com atraso à desaceleração da atividade, e os primeiros efeitos do aperto dos juros aparecem sobre o ritmo de contratação antes de alcançarem o estoque de empregos", explicou.
Do lado do crédito, o quadro já reflete esse aperto. A taxa média de inadimplência subiu de 4,9% em julho para 5% em agosto, o maior nível desde o início da série histórica do Banco Central, em março de 2011. O indicador considera operações com mais de 90 dias de atraso, somando pessoas físicas e empresas.
Entre as famílias, a inadimplência avançou de 5,8% para 6% no mesmo intervalo, também recorde da série. Já entre as empresas, o índice ficou estável em 3,3% no mês passado, o maior valor desde outubro de 2017, quando havia chegado a 3,4%.
Enquanto isso, o Tesouro Nacional informou nesta terça-feira que as contas do governo fecharam agosto com déficit primário de R$ 13,58 bilhões — resultado que ocorre quando as despesas superam as receitas, sem contar os juros da dívida pública. O número representa melhora frente ao déficit de R$ 16,2 bilhões registrado em agosto do ano passado, em valores corrigidos pela inflação, e é o melhor para o mês desde 2021, quando o rombo havia sido de R$ 11,8 bilhões.
Um resultado fiscal mais equilibrado é apontado por economistas como condição para que o Banco Central tenha espaço para acelerar os cortes de juros, desde que a inflação siga sob controle. O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual em seu último encontro, de 14% para 13,75% ao ano — o quinto corte consecutivo da taxa básica.
Na ata da reunião, divulgada na semana passada, o colegiado reforçou a cautela diante de um cenário ainda incerto. "No contexto atual de incerteza, o Comitê reitera que a magnitude do ciclo de [definição dos juros] será ajustada à luz da evolução do cenário, de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta", registrou o documento.
Para Benedito, os sinais de desaceleração no mercado de trabalho reforçam a chance de novos cortes, mas não justificam pressa. "Mas também reforça a necessidade de cortes graduais, uma vez que o mercado de trabalho ainda mostra pouca mobilidade", ponderou.
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