Polêmica teve início em reclamação de influenciadora contra serviço estético e culminou em embate sobre ostentação, racismo e transfobia.
O embate virtual entre a cantora Jojo Todynho e a influenciadora Malévola Alves escalou nesta segunda-feira (27), após a artista afirmar ter sido alvo de intimidações e ameaças diretas de agressão física. A controvérsia, que tomou as redes sociais ao longo do fim de semana, teve origem em uma contenda comercial e rapidamente expôs a radicalização das dinâmicas de confronto no ecossistema digital.
A crise começou quando Alves recorreu a seus perfis para manifestar descontentamento com um serviço prestado pelo cabeleireiro Robson Souza, cobrando de volta a expressiva quantia de R$ 6 mil investida no procedimento estético. O profissional, que reportou estar sofrendo ameaças da cliente, recusou a devolução dos valores. O cenário ganhou projeção nacional a partir do momento em que Todynho interveio para chancelar o trabalho de Souza, elogiando sua qualidade técnica.
Justificando seu apoio com a necessidade de defender prestadores de serviços, Todynho afirmou que “cabelo é artigo de luxo” e classificou a conduta de Alves como tentativa de ostentação baseada em litígios irreais. “O povo quer ostentar uma realidade que não vive”, declarou a cantora em sua manifestação. O posicionamento gerou uma enxurrada de críticas por parte de Alves, o que, de acordo com a artista, evoluiu para alertas de agressão física eminente.
Frente às alegadas intimidações, a artista sugeriu o enquadramento criminal das ameaças. Alertou a influenciadora que um eventual ataque poderia redundar na evocação do “código penal, tentativa de feminicídio, e também […] Lei Maria da Penha”. Além da blindagem jurídica, Todynho questionou abertamente a conduta de sua adversária em recortes raciais e de classe, interpelando a intenção de “bater numa mulher preta” em detrimento do alegado patrimônio exposto nas plataformas. “Você não gritou nos stories falando que é rica? Eu sou milionária, e mesmo assim eu sempre respeitei o trabalho de todos os profissionais. Porque a gente coloca a mão onde a gente consegue alcançar”, ressaltou.
No entanto, a argumentação de defesa à integridade e aos profissionais do setor foi ofuscada por menções à biologia da influenciadora, que é uma mulher trans. Em resposta contundente às hostilidades recebidas, a cantora verbalizou: “Oh mulher que não gesta, esqueci, quem gesta sou eu”. O ataque pessoal descolou a pauta do mero desacerto mercantil e precipitou duras condenações na internet.
Internautas acusaram Todynho de deslegitimar a oponente por meio da transfobia, o que fragilizou os apontamentos iniciais que ela levantara sobre as relações comerciais na web. Usuários e críticos assinalaram que a adoção desse artifício retirou a razão de Todynho no debate. “Você destruiu qualquer razão quando partiu para transfobia, ironia e ataque pessoal”, pontuou o internauta Arthur Souza.
O episódio cristaliza uma face crônica do ambiente digital brasileiro. Uma insatisfação sobre consumo, antes restrita a litígios de balcão e Procons, invariavelmente é transportada a uma praça pública onde fatos secundários atropelam os direitos do consumidor, resultando no linchamento de empresas, ameaças judiciais e uma contínua disputa lastreada em agendas identitárias.
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