O banqueiro abordou questões de negócios nas comunicações. O teor das respostas do ministro do STF é desconhecido, pois as conversas consistem em capturas de tela de um bloco de notas com configuração de visualização única. A defesa de Vorcaro repudiou a exposição dos dados, enquanto o magistrado optou pelo silêncio.
Uma reportagem veiculada na madrugada desta sexta-feira (6) expôs novas capturas de tela contendo mensagens que teriam sido remetidas pelo banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, no dia 17 de novembro de 2025, poucas horas antes de Vorcaro ser detido pela primeira vez.
Conforme as informações divulgadas, às 7h19, Vorcaro enviou um texto para Moraes através do WhatsApp. A mensagem não é exibida diretamente na interface do aplicativo, pois o link encaminhado direciona para o bloco de notas do smartphone do empresário.
Cerca de uma hora mais tarde, às 8h16, houve uma resposta de Moraes. Contudo, segundo a apuração, não há como visualizar o texto: a interação se deu por meio do recurso de visualização única, que deleta o conteúdo logo após ser aberto.
Às 17h22, o banqueiro disparou uma nova mensagem — mais uma vez utilizando um link para o bloco de notas: ‘fiz uma correria aqui para tentar salvar. fiz o que deu, vou anunciar parte da transação [sic]’.
A publicação aponta que o magistrado não retornou esse contato. Quatro minutos em seguida, às 17h26, Vorcaro redigiu: “alguma novidade? conseguiu ter notícia ou bloquear? [sic]’.
Vorcaro tratou com Alexandre de Moraes sobre o resgate do Master
A matéria publicada nas primeiras horas desta sexta-feira (6) trouxe à tona novos registros de interações atribuídas a Daniel Vorcaro e direcionadas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes em 17 de novembro de 2025, data que antecedeu a sua primeira captura pelas autoridades.
De acordo com o texto, às 7h19, Vorcaro acionou Moraes no WhatsApp. Como o link remetia ao bloco de notas do celular do executivo, o conteúdo não ficava visível no chat. O registro salvo no bloco dizia:
“bom dia. tudo bem? estou tentando antecipar os investidores aqui e tenho chances de conseguir assinar e anunciar ainda hoje uma parte. e ai eu irei pra la pra tentar assinatura dos demais investidores estrangeiros. de um outro lado, acho que o tema que falamos começou a dar uma vazada, obviamente sem qualquer detalhe. mas a turma do brb me disse que tá tendo um movimento de sacanagem do caso. e que a mesma jornalista de antes estava fazendo perguntas la. se vazar algo será péssimo, mas pode ser um gancho pra entrar no circuito do processo.se tiver alguma novidade, vamos falar [sic].”
Às 8h16, quase uma hora depois, Moraes respondeu. Todavia, a reportagem destaca a impossibilidade de ler o material: a comunicação ocorreu no formato de visualização única, desaparecendo após a leitura.
Às 17h22, Vorcaro mandou outro recado — de novo via link do bloco de notas: “fiz uma correria aqui para tentar salvar. fiz o que deu, vou anunciar parte da transação [sic].”
Segundo os relatos, essa investida ficou sem resposta do ministro. Às 17h26, o banqueiro insistiu: “alguma novidade? conseguiu ter notícia ou bloquear? [sic].”
Moraes teria retornado o contato na sequência, mas, novamente, os dados não puderam ser resgatados devido ao envio de três mensagens configuradas para sumir após serem vistas.
Às 19h58, Vorcaro questionou novamente: “alguma novidade?”. Posteriormente, às 20h48, mandou um novo recado: “foi, seria melhor na sexta junto com os gringos mas foi o que deu para fazer dentro da situação. acho que pode inibir. amanhã começam as batidas do esteves. to indo assinar com os investidores de fora e estou online [sic].”
Passada menos de uma hora, a Fictor Holding Financeira comunicou a aquisição do Banco Master — uma manobra que, conforme a averiguação, bate com os relatos que Vorcaro fazia no aplicativo.
A transação, entretanto, acabou não se materializando. Na manhã do dia seguinte, o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do Master. A Fictor ingressou com um pedido de recuperação judicial no começo de fevereiro deste ano.
Na noite daquele mesmo 17 de novembro, a Polícia Federal prendeu Vorcaro no Aeroporto de Guarulhos. A suspeita era de que ele tentava evadir-se do Brasil a bordo de um jato particular com rota para Malta, no continente europeu.
Suposto encontro
A figura do ministro Alexandre de Moraes desponta também em conversas virtuais mantidas entre o proprietário do Master e sua namorada, a blogueira Martha Graeff.
Em um dos diálogos, o executivo do setor financeiro insinua ter participado de um encontro com o magistrado no mês de abril de 2025.
A citação consta em um acervo recolhido pela Polícia Federal (PF) mediante a quebra de sigilo telemático do investigado, o qual foi repassado à CPMI do INSS.
Na troca de mensagens, Vorcaro avisa à sua então parceira que está a caminho de uma reunião com “Alexandre Moraes” na cidade de Campos.
Dez dias na sequência, o controlador do Banco Master volta a citar o ministro. No bate-papo, Vorcaro avisa que está em sua residência e realiza uma chamada de vídeo com a mulher. Após encerrarem a transmissão, Martha indaga: “quem era o primeiro cara?”. Diante disso, Vorcaro retruca: “Alexandre Moraes”.
Posicionamento das defesas de Moraes e Vorcaro
O ministro Alexandre de Moraes optou por não emitir comentários após a divulgação desta reportagem mais recente, porém, um comunicado expedido pelo STF na quinta-feira (5) — logo após os primeiros vazamentos na mídia — sustenta que ele jamais recepcionou as referidas mensagens.
Naquela oportunidade, a Suprema Corte complementou que a situação se tratava de uma “ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o STF”.
A equipe de advogados de Daniel Vorcaro declarou nesta sexta-feira que não obteve acesso aos dados extraídos dos dispositivos móveis e que, a despeito disso, informações “supostamente obtidas dos aparelho passaram a ser divulgadas por veículos de imprensa nos últimos dias”.
Conforme a defesa, o espelhamento do material foi repassado aos advogados somente na última terça-feira, dia 3 de março de 2026. O disco rígido (HD) entregue teria sido selado no mesmo instante, diante da autoridade policial, dos defensores e de um tabelião, com o propósito de garantir a confidencialidade.
Os representantes legais argumentaram ainda que bate-papos de cunho pessoal, íntimo e que citam indivíduos alheios à investigação — englobando também supostas conversas com autoridades, como o ministro Alexandre de Moraes — podem ter sofrido edições ou sido tiradas de seu real contexto antes de virem a público.
Perante essa conjuntura, os advogados comunicaram ter protocolado no STF uma solicitação para abertura de inquérito visando descobrir a fonte dos vazamentos, requerendo também que a Polícia Federal exiba a relação de todos os agentes que acessaram os dados dos telefones confiscados.
De acordo com a nota divulgada, o requerimento não mira profissionais de imprensa ou cidadãos comuns, mas tem o intuito de localizar quem, possuindo o dever legal de proteger o conteúdo sigiloso, possa ter infringido tal norma.
A defesa reitera a expectativa de que os possíveis culpados pela violação do sigilo funcional sejam devidamente descobertos e punidos.
Caso Master
A intervenção e liquidação do Banco Master por parte do Banco Central, ocorrida em novembro do ano antecedente, somada à nova detenção de Daniel Vorcaro, titular da empresa, representaram mais um episódio de um colapso que vinha ganhando forma há vários meses e que culminou, de igual modo, na liquidação do Banco Pleno e do Will Bank, ambos vinculados ao mesmo conglomerado.
A instituição financeira funcionava sob um iminente risco de insolvência, sufocada pelos altos gastos para captação de recursos e pelo envolvimento em operações avaliadas como perigosas, oferecendo taxas de juros consideravelmente superiores à média praticada no mercado.
O alerta vermelho no setor financeiro tornou-se mais palpável no instante em que o banco começou a comercializar ativos com rendimentos exorbitantes. O grande destaque ficava por conta dos CDBs lançados pela própria entidade.
O Certificado de Depósito Bancário (CDB) configura-se como uma aplicação de renda fixa na qual o cliente cede capital ao banco, obtendo juros como contrapartida. Esse retorno pode ser pré-fixado (estabelecido no ato do investimento) ou pós-fixado (vinculado a índices do mercado, a exemplo do CDI).
Esforços para comercializar o Master, a exemplo da oferta encabeçada pelo Banco de Brasília (BRB), não prosperaram. Todas as tratativas foram barradas devido a questionamentos de entidades fiscalizadoras, escassez de transparência, interferências políticas e citações ao nome do Master em processos investigatórios.

