Uma pesquisa brasileira inédita está abrindo novos caminhos para o tratamento de lesões medulares graves. Desenvolvida ao longo de quase 30 anos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a polilaminina tem se mostrado capaz de restaurar a comunicação entre o cérebro e o corpo, devolvendo movimentos a pacientes com paraplegia.
Como funciona a “reconexão”
A medula espinhal atua como a via expressa que leva os comandos do cérebro para o resto do corpo. Quando ocorre uma lesão grave, essa via é interrompida. A bióloga Tatiana Sampaio, líder da pesquisa, criou em laboratório uma rede de proteínas chamadas lamininas.
A polilaminina atua reconstruindo a “pista” para que os axônios — o prolongamento dos neurônios responsável por transmitir os impulsos nervosos — voltem a crescer e cruzem a área lesionada, restaurando a ponte de comunicação.
Resultados surpreendentes e Uso Compassivo
Na literatura médica, apenas cerca de 10% dos pacientes com lesão medular completa recuperam alguma função motora. Nos estudos acadêmicos com a polilaminina, essa taxa saltou para 75%. Pacientes relataram desde o retorno de movimentos sutis nas extremidades até a retomada do controle da bexiga e a capacidade de ficar em pé com o auxílio de tutores.
Atualmente, a substância não está disponível no mercado, mas a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem autorizado o seu “uso compassivo” — uma liberação humanitária, geralmente obtida via judicial, para pacientes graves que não possuem outras alternativas de tratamento. Até o momento, 30 pacientes já conseguiram aprovação para receber a aplicação.
O fator tempo: uma corrida contra a cicatriz
Para que o tratamento alcance sua eficácia máxima, os neurocirurgiões enfrentam uma janela de tempo crítica: a polilaminina deve ser injetada preferencialmente em até três dias após o trauma.
Esse prazo é fundamental porque, dias após a lesão, a medula começa a formar uma cicatriz espessa ao redor dos axônios afetados. Quanto mais avançada estiver essa cicatrização, maior será a barreira física para a ação regeneradora da proteína.
Limitações, Riscos e a Importância da Reabilitação
Apesar do entusiasmo e dos relatos de sucesso, pesquisadores e médicos alertam para pontos cruciais e limitações do tratamento atual:
- Apenas para lesões completas: A substância não é indicada para lesões incompletas. Pacientes que ainda preservam alguma sensibilidade ou pequenos movimentos correm o risco de perder essas funções remanescentes se receberem a injeção.
- A fisioterapia é inegociável: A medicação sozinha não resolve o problema. É exigida uma rotina de reabilitação e fisioterapia intensiva (frequentemente diária) para reensinar o corpo a se mover, o que esbarra na carência de centros de reabilitação especializados em várias regiões do país.
- Cautela científica: Parte da comunidade médica alerta para os riscos da aplicação em massa via liminares judiciais antes da conclusão total dos testes. É necessário mapear com exatidão os efeitos adversos a longo prazo e entender variáveis que ainda fogem ao controle rigoroso de laboratório.
A Anvisa já aprovou o início oficial dos ensaios clínicos controlados para o próximo mês. Caso a polilaminina seja bem-sucedida em todas as fases de testes exigidas, a expectativa da farmacêutica responsável pela patente é que o tratamento esteja amplamente disponível — com o desejo de inclusão no SUS — em até cinco anos.

