Em um intervalo de apenas um dia, Mato Grosso do Sul viu dois movimentos políticos que revelam visões distintas sobre o papel do setor produtivo no desenvolvimento do país.
De um lado, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) assumiu a presidência do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) da Fiesp, uma das mais relevantes instâncias estratégicas da indústria brasileira. A reunião de abertura dos trabalhos de 2026 colocou em pauta os impactos da geopolítica mundial no agro, o acordo Mercosul-União Europeia, o protecionismo internacional e os desafios estruturais do setor, como reforma tributária, juros elevados e o aumento das recuperações judiciais.
Ao assumir o comando do conselho, Tereza reforçou seu protagonismo nacional na defesa do agronegócio e da agroindústria, destacando que o acordo com a União Europeia, embora longe do ideal, representa avanço estratégico diante de um cenário global protecionista. Também defendeu segurança jurídica, previsibilidade e competitividade como pilares para manter o agro brasileiro — responsável por supersafras e recordes de exportação — como motor da economia.
A fala da senadora foi marcada por tom institucional, foco técnico e articulação internacional, reforçando a necessidade de união entre indústria, agro e poder público para enfrentar desafios econômicos e comerciais.
Do outro lado, exatamente um dia depois, o deputado estadual João Henrique Catan (PL) utilizou a tribuna da Assembleia Legislativa para direcionar críticas à Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul (FIEMS). Em discurso contundente, questionou incentivos fiscais concedidos a grandes empresas e fez acusações indiretas sobre a relação da entidade com o governo estadual.
A fala gerou desconforto em setores empresariais e parte do próprio campo conservador, que tradicionalmente sustenta a defesa da livre iniciativa, da segurança jurídica e do fortalecimento das instituições representativas do setor produtivo. A FIEMS é a principal entidade da indústria sul-mato-grossense e atua na interlocução econômica, qualificação profissional e formulação de políticas industriais.
Enquanto Tereza Cristina assumia protagonismo nacional defendendo integração comercial, competitividade e fortalecimento institucional do agro e da indústria, o discurso de Catan tensionava a relação com a principal entidade industrial do Estado, levantando questionamentos sobre coerência estratégica dentro do próprio campo político que se apresenta como defensor do empreendedorismo.
Os dois episódios escancaram uma diferença de abordagem: de um lado, atuação institucional voltada à articulação e expansão de mercados; de outro, confronto direto com uma federação empresarial estadual.
Em um estado onde o agronegócio e a indústria têm peso decisivo na geração de empregos, arrecadação e crescimento, o contraste entre cooperação estratégica e embate institucional passa a ser observado com atenção pelos próprios setores que movimentam a economia sul-mato-grossense.

