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Religião

Eleição reforça divergência histórica sobre Maria entre evangélicos e católicos

Reforma protestante de 1517 explica por que católicos e evangélicos tratam de forma distinta a mãe de Jesus, segundo teólogos

A reta final do primeiro turno da campanha para a eleição presidencial trouxe ao centro do debate público uma controvérsia antiga: por que católicos e evangélicos tratam de maneira tão diferente Maria, a mulher que a Bíblia apresenta como mãe de Jesus. A disputa, marcada por fake news e por gatilhos que mobilizam grupos religiosos conservadores, reacende uma cisão que remonta à Reforma Protestante, no século 16.

Para o catolicismo, Maria é Nossa Senhora, tratada como a maior das santas e como intermediária entre os fiéis e Jesus. O Vaticano reconhece Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil desde 1930. Entre evangélicos, ela é reconhecida como a mulher que aceitou gerar o filho de Deus e viveu como modelo de fé, mas não recebe o mesmo grau de devoção atribuído pelos católicos.

"A controvérsia parte da Reforma Protestante quando o ponto era especificamente a invocação de oração a Maria", afirma o teólogo evangélico Gutierres Fernandes Siqueira, membro da Assembleia de Deus e autor de Quem Tem Medo dos Evangélicos? — Religião e Democracia no Brasil de Hoje.

O marco da divergência é o episódio ocorrido na atual Alemanha em 31 de outubro de 1517, quando o monge Martinho Lutero (1483-1546) afixou na porta de uma igreja suas 95 teses contra o que via como abusos do catolicismo. Foi o início do racha que deu origem às primeiras denominações protestantes.

"A divergência apareceu na Reforma Protestante, mas se aprofundou e assumiu formas diferentes ao longo dos séculos seguintes", pondera o frade franciscano Maurício Solfa, filósofo, teólogo e autor de 60 Dias para Mudar. Segundo ele, "Lutero e Calvino reconheciam Maria e falavam dela com respeito", e o conflito estava em como ela deveria ser venerada.

Lutero acreditava na virgindade perpétua de Maria e chegou a escrever um livro sobre o tema, o Magnificat: O Louvor de Maria. O teólogo e pastor luterano Valdir Steuernagel, autor de Um Olhar Sobre Maria, Serva do Senhor, destaca que, para o reformador, "Maria é serva de Deus. Ela não faz nada por si mesma e não chama para si nenhum papel de ídolo".

"Lutero era muito mais mariano do que o evangélico brasileiro de hoje, principalmente essa linha que se desdobrou dos avivamentos do século 19, com perspectiva anticatólica", reconhece Siqueira.

O impasse teológico tem duas raízes centrais. A primeira é o retorno às escrituras como doutrina única, defendido pela Reforma — Maria aparece na Bíblia, mas sua construção como santa, virgem e intercessora se deu por tradição posterior. A segunda é a condenação bíblica à idolatria: protestantes veem nas imagens de santos e no culto a Nossa Senhora uma ultrapassagem dessa linha. "Católicos não adoram Maria, não idolatram Maria. É veneração", esclarece Solfa.

A devoção mariana católica se consolidou em etapas ao longo de dois milênios. No Concílio de Éfeso, na atual Turquia, no ano de 431, Maria recebeu o título de "mãe de Deus". Em 649, o Concílio de Latrão firmou o dogma da virgindade perpétua. No século 19, o Vaticano declarou que ela própria teria sido concebida sem o pecado original. O último dogma mariano, sobre a assunção de corpo e alma aos céus, data de 1950.

Boa parte dessas construções é rejeitada pelos evangélicos hoje. "Um evangélico comum abomina" a ideia de virgindade perpétua, afirma Siqueira: "É meio consenso que depois ela teria tido filhos com José." Para o teólogo, há ainda um fator identitário na postura evangélica contemporânea: "Não é que o evangélico seja contra Maria. Mas há um medo de parecer católico."

O linguista Lucas Nascimento, professor na Universidade Estadual de Feira de Santana e autor de O Veneno da Língua, aponta que "o verdadeiro ponto de cisão não era dizer o que era Maria, mas a função atribuída a ela". Já o historiador Gerson Leite de Moraes, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, resume a visão protestante: "Maria é a escolhida, a bem-aventurada. Teve o privilégio de ser a mãe do salvador. E ponto."

Para o pastor batista Yago Martins, autor de Igrejas que Calam Mulheres, "não é possível conciliar integralmente as duas posições sem que uma delas abandone convicções fundamentais". Solfa concorda que não há convergência plena, mas vê espaço para diálogo: "O principal ponto em comum é que Maria está ligada a Cristo. Católicos e protestantes podem afirmar juntos que Maria só pode ser compreendida a partir de Jesus Cristo."


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