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Jogos

"O Xbox não está à venda", diz CEO em meio a crise

Asha Sharma assumiu o console da Microsoft em fevereiro e enfrenta demissões, queda de relevância e especulações sobre uma eventual separação

A Microsoft atravessa a pior crise de sua divisão de videogames em anos, e coube a Asha Sharma, de 38 anos, tentar revertê-la desde que assumiu o comando do Xbox em fevereiro, sem experiência prévia no setor. A nomeação ocorreu em meio ao encarecimento dos custos de produção de consoles e à perda de espaço do Xbox diante de Sony e Nintendo.

"Nosso negócio hoje não está saudável", escreveu Sharma em carta aos funcionários em julho. Em entrevista, ela resumiu o desafio à frente: "Clareza é gentileza. Preciso criar clareza para que possamos enfrentar os desafios e resolvê-los."

A divisão, avaliada em 23 bilhões de dólares, responde por cerca de 6% dos lucros totais da Microsoft, companhia cada vez mais concentrada em infraestrutura de dados e inteligência artificial. Franquias como Halo e Gears of War perderam relevância cultural, e uma estratégia de aquisições bilionárias — que incorporou Minecraft e Call of Duty — gerou lucros modestos.

Custos em alta, vendas em queda

Consoles como o Xbox Series X|S ficaram mais caros de produzir à medida que empresas de inteligência artificial, incluindo a própria Microsoft, aumentam a demanda por chips de memória e processamento. O público migrou para jogos gratuitos em celulares, e até os títulos mais vendidos têm dificuldade para cobrir os custos crescentes de desenvolvimento.

Líderes do setor classificam o momento como a pior crise da indústria desde os anos 1980. Uma pesquisa citada pela reportagem apontou que um terço dos funcionários do setor perdeu o emprego desde 2024 — um retrato que se repete no próprio Xbox: no verão (do Hemisfério Norte), 20% da equipe foi demitida e cinco estúdios de desenvolvimento foram fechados.

No fim de setembro, a divisão anunciou a demissão de quase 270 funcionários, medida que desmontou a equipe responsável por Halo e transferiu o futuro da franquia para a Activision. Em Maryland, sindicalistas chegaram a plantar centenas de bandeiras vermelhas, uma para cada posto eliminado.

Uma ofensiva de imagem

Para conter a crise, Sharma transformou seus primeiros cem dias à frente do Xbox em uma campanha de aproximação com jogadores e imprensa. Ela deu seu número de celular pessoal a jornalistas e influenciadores, reduziu o preço da versão mais cara do Game Pass — serviço de assinatura com centenas de jogos — e cancelou uma integração de inteligência artificial mal recebida pelo público.

A estratégia teve efeito: as manifestações hostis que marcaram o início de seu mandato diminuíram semanas depois, e influenciadores passaram a descrever a divisão como uma espécie de azarão enfrentando um "problema impossível". Três dias após as demissões do verão, Sharma foi indicada para a força-tarefa de Produtividade e Empregos do Federal Reserve, o banco central americano.

Especulação sobre o futuro

O histórico de aquisições ajuda a explicar o tamanho do desafio. A Microsoft pagou 2,5 bilhões de dólares pela Mojang, estúdio de Minecraft, em 2014, e chegou a desembolsar 75,4 bilhões de dólares pela Activision Blizzard, dona de Call of Duty, World of Warcraft e Candy Crush. Reguladores britânicos, temendo monopólio nos jogos em nuvem, levaram o Xbox a abandonar projetos de controles dedicados a essa tecnologia, segundo três ex-funcionários — versão que um porta-voz da empresa nega. O Game Pass, por sua vez, chegou a 34 milhões de assinantes antes de começar a perder usuários.

Diante desse cenário, analistas preveem uma eventual separação entre Xbox e Microsoft, que permitiria ao console buscar parcerias estratégicas sem pesar no balanço da controladora. "O Xbox sempre foi uma parte aspiracional do portfólio da Microsoft", disse Jesper Juul, professor da Royal Danish Academy que pesquisa videogames. "Agora eles enfrentam uma questão existencial."

Sharma rejeita a hipótese. "O Xbox não está à venda", afirmou. "Faremos o que for necessário para preparar a empresa para o sucesso e analisaremos as parcerias certas, o modelo operacional adequado e tudo o que for necessário para alcançar isso." O executivo-chefe da Microsoft, Satya Nadella, recusou pedido de entrevista, mas disse em um podcast recente esperar que Sharma leve o Xbox a voltar a crescer no próximo ano fiscal.

Apostas para o futuro

A nova fase do Xbox tem como meta alcançar 1 bilhão de usuários, com expansão via computação em nuvem para mercados pouco explorados na África, na América Latina e no sul da Ásia. Outro pilar é reinvestir em Minecraft para disputar espaço com o Roblox, que conquistou uma geração mais jovem de jogadores.

Executivos da empresa também trabalham em um console de nova geração, sob o codinome Project Helix, cujos detalhes permanecem reservados. "Acho que as fronteiras entre jogadores e desenvolvedores ficarão cada vez mais indefinidas", disse Jason Ronald, responsável pelos esforços do Xbox para essa próxima geração.

Semanas antes das demissões mais recentes, Sharma já havia sinalizado o tom de sua gestão: "Não acho que alguém aceite cargos como esse em busca de equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Acho que você os aceita porque acredita na missão e faz o que for necessário."


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