Investigação da Polícia Federal aponta o Comando Vermelho por trás do monopólio; vinte pessoas foram presas, entre parentes do rapper Oruam e um vereador
Moradores de diferentes bairros do Rio de Janeiro e da Região Metropolitana relatam que o tráfico de drogas assumiu o controle da oferta de internet em áreas dominadas por facções criminosas, cortando cabos de operadoras regulares e forçando a população a contratar provedores ligados aos grupos armados.
As denúncias se somam às investigações da Polícia Federal que resultaram na Operação Backbone. Segundo o levantamento, traficantes armados cortam cabos e incendeiam caixas de distribuição de operadoras regulares para impedir o funcionamento dos serviços legais e obrigar moradores e comerciantes a aderir a provedores autorizados pela facção.
Relatos obtidos pelo RJ1 mostram que os criminosos impedem a atuação de empresas regularizadas, impõem provedores próprios e cobram valores considerados abusivos pelos clientes. Com medo de represálias, a maioria dos moradores prefere não se identificar.
No Engenho da Rainha, na Zona Norte do Rio, um comerciante afirma que operadoras como a Claro foram expulsas da região. "Essas operadoras foram boicotadas pelo tráfico. Eles vão nos postes, cortam as fiações, até as operadoras pararem de vir aqui fazer manutenção", contou.
Sem alternativa, segundo ele, os moradores passaram a depender de um único serviço. "Hoje a gente é obrigado a assinar uma internet chamada Oliver Net, a famosa internet do tráfico. E a gente não tem saída. Mas já faz mais de um mês que essa internet simplesmente parou de funcionar e a gente não tem para onde recorrer", disse.
Em Benfica, também na Zona Norte, os pacotes cobrados pelo serviço controlado pelo tráfico variam de R$ 104 a R$ 154, conforme a velocidade contratada — valor que ainda inclui multa de R$ 20 para pagamentos feitos após o vencimento. Um morador da região relatou que os custos aumentaram nos últimos anos sem que houvesse opção de escolha. "Você não tem mais o direito de pedir uma internet de uma operadora legalizada. Só a operadora deles. Eles cobram para instalar o roteador, para trocar o equipamento e até para fazer manutenção. Tudo é cobrado", afirmou.
O mesmo padrão foi relatado em Itaboraí, na Região Metropolitana, nos bairros São Joaquim e Três Pontes. Um morador contou que a mensalidade subiu de R$ 70 para R$ 120 — aumento de cerca de 70% — sem possibilidade de contratar outra empresa. "E se eu não contratar essa, não posso colocar nenhuma outra", disse.
O esquema motivou ao menos duas ações policiais nos últimos dois dias. Nesta terça-feira (20), a Polícia Militar realizou uma operação na Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio, comunidade dominada pelo Comando Vermelho. Além de combater o tráfico de drogas e o roubo de veículos, a ação teve como objetivo reprimir a exploração irregular do serviço de internet na região. Cinco pessoas foram presas, e os policiais apreenderam dois fuzis e drogas.
Na segunda-feira (19), a Polícia Federal já havia deflagrado uma operação de maior porte contra o mesmo esquema, atribuído ao Comando Vermelho, nos complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão. Segundo as investigações, os criminosos cortavam cabos de empresas concorrentes, queimavam caixas de distribuição e impediam equipes técnicas de realizar reparos — em troca, as empresas autorizadas pagariam uma taxa mensal para operar nas áreas.
A ação terminou com vinte pessoas presas, entre elas Márcia Gama Nepomuceno, mãe do rapper Oruam, e Lucas Nepomuceno, irmão do artista. Também foi cumprido mandado de prisão contra Marcinho VP, pai de Oruam e apontado como uma das lideranças da facção, hoje detido em penitenciária federal. Outro alvo preso foi o vereador Fábio Silva (Podemos), localizado em Londrina, no Paraná.
Em nota, a Conexis Brasil, entidade que representa as empresas de telecomunicações, afirmou que o bloqueio ao acesso de equipes técnicas a determinadas regiões dificulta a manutenção e a instalação de equipamentos. A entidade alertou para os riscos à segurança dos profissionais e defendeu ações integradas de segurança pública para enfrentar o problema.
A Polícia Militar informou que mantém policiamento nas regiões citadas e prende suspeitos flagrados em atividades criminosas, mas ressaltou que o monopólio ilegal da internet costuma ocorrer de forma velada e depende de investigação — a corporação orienta as vítimas a registrar ocorrência. A Polícia Civil, por sua vez, disse atuar diariamente no combate a organizações criminosas e milícias que tentam impor monopólio na prestação de serviços de internet, com mapeamento das estruturas financeiras dos grupos e combate à extorsão contra moradores e empresas.
Para os moradores que seguem pagando por um serviço sem alternativa, a promessa das autoridades de repressão ao esquema ainda não se traduziu em concorrência de fato nas comunidades afetadas.
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